Ttulo: O Segredo da Casa Ancestral
Autora: Barbara Cartland.
Dados da Edio: Nova Cultural, So Paulo, 1989.
Ttulo Original: The haunted heart.
Gnero: romance.
Digitalizao: Dores cunha.
Correco: Edith Suli.
Estado da Obra: Corrigida.
Numerao de Pgina: Rodap.
Esta obra foi digitalizada sem fins comerciais e destinada unicamente 
leitura de pessoas portadoras de deficincia visual. Por fora da lei de
direitos de autor, este ficheiro no pode ser distribudo para outros
fins, no todo ou em parte, ainda que gratuitamente.

Barbara Cartland A mais famosa e perfeita autora de romances histricos,
com 350 milhes de livros vendidos em todo o mundo

O segredo da Casa ancestral
Vestida apenas com uma fina camisola, Gina jazia no
cho de uma masmorra mida e fria, amarrada e
amordaada. O lugar em que estava presa era um
esconderijo onde, nos sculos passados, se abrigavam
padres e monarquistas perseguidos, na casa do conde
de Ingleton. Trmula de pavor, Gina se perguntava se
o belo conde, ocupado em entreter seus convidados,
notaria a sua falta. Para vir em seu socorro, ele teria
de se lembrar da existncia daquele aposento e encontrar uma passagem
secreta esquecida de todos. A Inveja estava destruindo a vida do jovem
conde.

BARBARa CARTLAND
O segredo da casa ancestral
Leitura - a maneira mais econmica de cultura, lazer e diverso.
Ttulo original: The haunted heart
Copyright:
(c) Barbara Cartland Promotions 1989
Traduo: Erclia Magalhes Costa
Copyright para a lngua portuguesa: 1989
EDITORA NOVA CULTURAL LTDA.
Av. Brigadeiro Faria Lima, 2000 - 3? andar
CEP 01452 - So Paulo - SP - Brasil
Caixa Postal 2372
Esta obra foi composta na Editora Nova Cultural Ltda.
Impressa na Artes Grficas Parmetro Ltda

NOTA DA AUTORA
Passagens secretas e esconderijos para religiosos perseguidos costumam
ser encontrados na maioria das casas ancestrais construdas no perodo
Tudor.
A rainha Maria, catlica romana, perseguiu os protestantes, e a rainha
Elizabeth I, depois de subir ao trono, perseguiu e aterrorizou os
jesutas.
As famlias catlicas mantinham os padres em suas casas, escondidos em
cmodos secretos, at que eles pudessem fugir para o continente. Nesses
esconderijos os padres celebravam os ofcios religiosos numa atmosfera de
medo; caso fossem apanhados, seu destino seria a forca.
Esses esconderijos secretos foram utilizados novamente quando os
monarquistas eram caados pelas tropas de Cromwell.  interessante saber
que em grande nmero de casas histricas a existncia de esconderijos s
 conhecida pelo chefe da famlia e pelo filho mais velho.
Naturalmente se espera encontrar fantasmas em toda casa muito antiga.
Quando eu era mocinha, morei durante dois anos em uma famosa casa mal-
assombrada, em Somerset. Era aterrador ouvir constantemente passos de
pessoas subindo a escada.
Depois dessa experincia, passei a mandar benzer todas as casas que
possuo. Todavia, foi depois que mandei benzer minha casa de Camfield
Place que fiquei sabendo que Beatrix Potter, quando era garota, foi
assustada por fantasmas nos corredores e na sala de estar.
Atualmente tenho apenas um fantasma: o do meu cocker spaniel que, estando
com um tumor maligno, apesar de muito novo, precisou ser posto para
dormir. Isso aconteceu depois de eu ter mandado benzer a casa, e o
animalzinho tem ficado conosco desde ento. Muitas pessoas afirmam que o
vem, mas o cozinho no amedronta ningum. Ele permanece conosco por
sentir-se feliz ali e porque nos ama.
Meu cocker spaniel mencionado no livro Famosos Fantasmas da Inglaterra,
porque quando recebi a visita da autora, ela me confessou que j estava
cansada de ouvir casos de fantasmas que vagavam carregando a prpria
cabea debaixo do brao e fora uma alegria ouvir um relato diferente.
Meu cocker spaniel ocupa um lugar muito importante no apenas em nossas
vidas, mas tambm nas daqueles que acreditam, como eu, que a morte no
existe.

CAPTULO I
1840

- Ento? Entendeu bem, Gina? Voc ir para minha casa assim que tiver
arrumado a bagagem.
- Sim, tio Edmund.
- Tomar a diligncia para Bedonbury. Minha carruagem j se encontrar a
sua espera no entroncamento da rodovia principal com a estrada para The
Towers.
- Sim, tio Edmund.
- Naturalmente, sua ama ter de acompanh-la - prosseguiu lorde Calborne.
- Mas, assim que chegar, ela dever voltar. No h lugar para a nanny em
The Towers.
Gina susteve a respirao. Fez um esforo para pedir ao tio:
- No seria possvel permitir que a nanny ficasse comigo? Ela est em
nossa casa desde que eu nasci!
- Nesse caso, j  hora de a nanny se aposentar. Alm disso, voc j tem
dezoito anos, e no necessita dos cuidados de uma ama.
- Limpando a garganta, lorde Calborne prosseguiu: - Na verdade, j
planejei qual ser sua funo quando vier morar com sua tia e comigo.
Fez-se uma pausa. Era evidente que lorde Edmund esperava a pergunta da
sobrinha.
- E qual ser, tio Edmund?
- Logo vai ver que h inmeras tarefas na casa; depois de se desincumbir
delas, voc poder me ajudar no meu trabalho desprendido pelos
missionrios do Extremo Oriente. Todavia, pretendo contratar um
secretrio, uma vez que estou em Londres.
Gina emitiu um leve murmrio, porm permaneceu calada. O tio continuou:
- A cada ano que passa, vejo que so cada vez mais expressivos os
resultados do meu trabalho. Isso  to gratificante! Far um grande bem a
sua mente e a sua alma ajudar-me a levar a luz do Evangelho queles que
vivem nas trevas.
Havia uma nota de exaltao na voz de lorde Calborne. Ocorreu a Gina que
no era sem motivo que seu tio era chamado de "nobre pregador".
Acabando de ajuntar uns papis, lorde Calborne disse:
- Naturalmente, antes de partir, no se esquea de comprar alguns
vestidos pretos. Fiquei chocado ao ver que voc no est usando luto
fechado.
- O vestido que usei ontem no enterro de mame era muito grosso e quente
demais para a temperatura de hoje - explicou Gina. - Tambm no tive
tempo de ir ver outras roupas, e...
Ela parou subitamente. Quase ia dizendo:
"Nem papai nem mame suportavam luto fechado".
Seu tio no iria compreender isso.
- Eu imaginei que, considerando como voc sentiu a perda de sua me,
fosse encontr-la inteiramente coberta de preto - disse o tio num tom de
crtica severa.
Lorde Calborne esperou que a sobrinha se desculpasse, mas ela permaneceu
calada.
- Indo morar com sua tia e comigo, ter de demonstrar respeito por
aqueles que deixaram este mundo. Isso significa que usar luto durante
doze meses. Depois desse perodo, permitirei que use roupas de tom suave,
um meio-luto; poder usar vestidos na cor cinza ou marron.
- Compreendo.
Lorde Calborne consultou o relgio.
- Preciso ir. Tenho um encontro com o bispo de Londres e no posso me
atrasar.
- Certamente, tio Edmund.
Vendo que o tio se dirigia para a porta, Gina correu  frente dele para
abri-la, mas a nanny j se achava no hall.
- Sua tia e eu estaremos a sua espera na quinta-feira ou talvez na sexta,
o mais tardar. Verifique no posto de diligncias a hora que voc dever
chegar e me comunique com antecedncia. No
quero que meus cavalos fiquem esperando por muito tempo.
- Claro... Farei isso, tio Edmund.
Lorde Calborne fitou a sobrinha intensamente, e, lembrando-se de quem era
ela, quis dizer algo, porm mudou de ideia e saiu, dirigindo-se 
carruagem um tanto antiquada que ficara estacionada a sua espera.
Os dois cavalos de raa, muito bem cuidados e fortes, puseram-se em
movimentos e desceram a rua. A nanny fechou a porta. Gina atirou-se nos
braos dela, chorando.
- Oh, nanny, no posso suportar! No posso ir para The Towers! No
posso... No posso!
At aquele momento, Gina havia conseguido controlar orgulhosamente o
desespero. No havia chorado nem mesmo durante o enterro da me. Agora,
porm, as lgrimas inundavam-lhe o rosto.
A nanny abraou-a.
- Ora, no se entregue ao desespero, querida. No h nada que voc possa
fazer.
- Como suportarei? Eles nem permitiro que voc fique comigo!
As palavras de Gina saram entre soluos, e ela sentiu que a ama retesava
os msculos.
- Eu no posso perd-la, nanny... No posso! Alm disso sei que viver
naquela casa ser viver... no inferno!
- Oh, no diga isso! - a ama repreendeu-a. - No deve falar dessa forma,
e no tem outro lugar aonde possa ir.
com grande esforo, Gina enxugou as lgrimas com as mos e foi para a
sala de estar.
Aquela casa, lindamente decorada, localizada numa rua tranquila do bairro
de Islington, havia sido alugada por preo relativamente baixo quando
Elizabeth Borne, me de Gina, se vira forada a mudar-se para Londres por
algum tempo, por motivo de sade.
O mdico da sra. Borne, que a atendia no campo, aconselhara sua paciente
a consultar mdicos em Londres, onde seria submetida a uma inevitvel
cirurgia.
Apesar de os mdicos considerarem essa cirurgia relativamente simples,
Elizabeth morreu na mesa de operao.
Para a filha, a morte da me, alm de ter sido um choque, fora tambm o
fim de sua felicidade.
Gina vivera com os pais num lindo solar, numa pequena vila a dez milhas
de Londres. Durante toda a sua infncia, jamais conhecera a infelicidade,
a tristeza ou o medo.
O honorvel Reginald Borne, filho mais novo do segundo lorde Borne, no
era um homem rico. Seu irmo mais velho era, de acordo com a tradio, o
herdeiro da casa ancestral da famlia, das terras e da maior parte da
fortuna que o pai viesse a deixar.
Reginald, quinze anos mais jovem do que o irmo Edmund, um  "filho
temporo", como se costumava dizer, sempre havia gozado a vida, e fora
alegre desde o nascimento. Extremamente belo, grande desportista, Reggie
tivera amigos muito devotados enquanto vivera.
Vendo-se perdidamente apaixonado, Reggie casara-se com Elizabeth, moa de
tima famlia do condado, porm possuidora de um dote bem pequeno.
O casamento no teve a aprovao de lorde Calborne nem de Edmund, os
quais esperavam que um homem to belo e fascinante quanto Reginald se
casasse com alguma rica herdeira ou com a filha de um eminente
aristocrata.
No entanto, ele vivera gloriosamente ao lado da mulher que havia
escolhido para esposa.
Por formarem um casal lindo e alegre, Elizabeth e Reggie acabavam sendo o
maior sucesso nas festas. Algum dissera certa vez que os dois sempre
"eram a alma" de qualquer reunio ou festa a que comparecessem.
Por essa razo, eles viviam cercados de amigos que os cumulavam de luxos
que no poderiam ter por si mesmos.
Elizabeth e Reggie eram convidados para caadas, e recebiam dos
anfitries as mais fantsticas montarias e as melhores matilhas.
Nas competies de tiro, Reggie era considerado o melhor atirador, o que
lhes assegurava, a ele e  esposa, frequentes convites para se hospedarem
nas melhores propriedades da Inglaterra.
No seu time de plo, Reggie era um jogador indispensvel, e seus cavalos
lhe eram dados pelo capito da equipe.
Gina lembrava-se de que sua casa no campo vivia sempre cheia
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de amigos que vinham de Londres para ver Elizabeth e Reggie.
Por outro lado, esses amigos mandavam busc-los de carruagem sempre que
ofereciam em Londres um baile, uma recepo ou uma festa onde os Borne
eram presena indispensvel.
Ento, h um ano, o pai de Gina sofrera uma queda violenta do cavalo que
montava ao participar de uma corrida de obstcu los, morrendo logo em
seguida.
A partir da, tudo mudou.
A princpio Gina no conseguia acreditar que um homem to cheio de vida
pudesse estar morto. Logo em seguida, porm, foi obrigada a se dar conta
de que teria de cuidar de sua me, pois esta se mostrava inteiramente
incapaz disso.
Elizabeth Borne no apenas ficara completamente prostrada pela dor que
sentia com a perda do marido, como tambm no tinh a menor vontade de
continuar vivendo sem ele.
Confiante, Gina acreditou que "o tempo seria melhor remdio" e que aos
poucos a me voltaria a ser a mesma criatura alegre de sempre.
Mas, na realidade, Elizabeth foi ficando cada vez mais abatida e aptica.
Chorava muito e lamentava-se diante dos amigos que em vo tentavam
consol-la. Vivia to introvertida que parecia nem se dar conta das
pessoas que a rodeavam.
Mesmo a ss com a filha, Elizabeth parecia pouco atinar com o que Gina
lhe dizia.
Preocupada, Gina decidiu consultar o mdico, um velho amigo da famlia.
Depois de examinar a paciente, o mdico usou de toda franqueza:
- Como voc sabe,  muito difcil impedir sua me de se lamentar e de
pensar constantemente no marido. Todavia, devo dizerlhe que no  s isso
o que Elizabeth sente. Descobri que ela sente dores, e seu estado inspira
cuidados. Sinceramente, no estou gostando nada disso.
- O que acha que devemos fazer, dr. Emerson? - perguntara Gina,
mostrando-se alarmada.
- Vou dar-lhes alguns remdios, mas, se ela no melhorar, seria
conveniente ouvirmos a opinio de outro mdico.
A ideia, entretanto, aborreceu demais Elizabeth Borne; por isso
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Gina e o dr. Edmund deixaram de insistir para que a paciente fosse
examinada por outro mdico.
S mais tarde Gina compreendeu seu erro. Elizabeth passou a sentir dores
fortssimas, e acabou aceitando ir para Londres. Alugaram a casa de
Islington, recomendada por um dos amigos.
Gina s foi compreender a gravidade da doena de sua me quando, depois
de v-la internada numa casa de sade para ser submetida a uma operao,
recebeu a notcia de que Elizabeth estava morta.
Era como se sua prpria vida tambm estivesse terminada. Escreveu ao tio,
lorde Calborne, agora seu tutor, comunicando-lhe o dia e a hora do
funeral.
com grande pesar, reconheceu que teria de vender o solar. No poderia
ficar morando ali sozinha. Alm de o tio no lhe permitir isso, no teria
meios de manter aquela bela casa.
Seu pai no apenas gastava todo o dinheiro que recebia da penso
concedida pelo irmo mais velho, mas tambm contrara inmeras dvidas.
Elizabeth tinha uma pequena renda vinda da aplicao do capital que o pai
lhe deixara, mas aquela seria suficiente apenas para pagar o salrio da
nanny, e sobraria um pouco de dinheiro para comprar uns trs vestidos por
ano.
"O que farei? O que poderei fazer, meu Deus?", perguntou ela em orao.
Entretanto, conhecia a resposta: seria obrigada a ir viver na casa de seu
tio e tutor.
Gina j havia estado na The Towers apenas duas vezes na vida, mas ainda
trazia na memria aquele ambiente de austeridade que tanto a
impressionara.
Pouco antes do Natal, h alguns anos o pai havia recebido uma carta pela
manh, e a abrira  mesa do desjejum.
- Receio que tenhamos de ir para The Towers passar o Natal
- ele dissera  esposa.
- Oh, no! No podemos fazer isso! - Elizabeth protestara.
- Mame me escreveu dizendo que papai est muito mal, e os mdicos lhe
deram apenas mais um ms ou dois de vida.
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- Nesse caso, teremos de cumprir nosso dever - concordara a sra. Borne
com um suspiro.
Mas Gina no achara a casa dos avs nem um pouco divertida. Na ocasio,
contava dez anos, porm lembrava-se bem da aparncia fria e austera de
The Towers e da atmosfera enregelante de seu interior.
Pela manh e  noite havia as longas e cansativas oraes da famlia. A
conversa raramente deixava de ser sobre o empenho de Edmund em converter
os nativos de algum pas distante.
Reginald costumava dizer que o irmo estava sempre empenhado em "evitar
que os pobres nativos de algum pas distante vivessem com sua alegria
natural".
Aos catorze anos Gina voltara  casa do tio, que j era o terceiro lorde
Calborne. Tanto ela como a me haviam sido "intimadas" a ajudar lady
Calborne a costurar o que era conhecido como tnicas "me Hubbard", que
seriam enviadas para algum obscuro e longnquo pas do Oriente, e
naturalmente cobririam a nudez de belas moas de pele morena.
s refeies, lorde Calborne fazia sua prece de ao de graas pela
comida e demorava-se tanto naquela sua sonolenta e interminvel orao
que quando iniciavam a refeio os pratos servidos j estavam frios.
Nessa ocasio, Gina e os pais haviam ficado com os tios somente trs
dias, que entretanto lhes pareceram demorar a passar como trs sculos.
Gina s esperava no ter de voltar para aquela casa to aborrecida.
Lembrando-se disso tudo, a jovem se perguntava:
"Como poderei viver num lugar assim? Como suportarei uma vida dessas ano
aps ano? "
Sua vontade era estar morta, para poder ficar junto dos pais. No tinha
dvida de que, onde quer que ambos estivessem, s poderiam estar felizes
e risonhos.
Era bem tpico de tio Edmund encarar a morte de modo to sombrio e querer
que ela usasse luto fechado durante um ano. J seus pais sempre diziam
que, se os cristos acreditavam na ressurreio, era hipocrisia ficar
pranteando excessivamente uma pessoa que morreu e cobrir-se de negro.
Reggie costumava dizer  esposa em tom de brincadeira:
13- Quando voc for ao meu enterro, querida, quero que use rosas cor-de-
rosa nos cabelos, como estava usando quando a vi pela primeira vez.
Achei-a a mulher mais linda que j surgira diante dos meus olhos!
Elizabeth havia achado graa e respondera:
- Voc pode imaginar como as pessoas ficariam escandalizadas! Mas no
fale em morte, pois no suporto pensar que um dia poderei perd-lo.
- Aonde quer que eu v - respondeu Reggie -, no a perderei, e se houver
outra encarnao estaremos juntos novamente.
Lorde Calborne ficaria horrorizado se ouvisse o irmo conversando dessa
forma com a esposa.
Para ele, os pecados cometidos nesta terra seriam punidos num inferno
abrasador. S os muito puros iriam direto para os portes do paraso.
com tais convices, Edmund tratava de assegurar que por ocasio de sua
morte fosse bem recebido nos "portes adornados de prolas". Mais de uma
vez ele havia deixado bem claro que reprovava a atitude do irmo e da
cunhada em relao  morte.
Realmente, durante o enterro de Reginald, Edmund assumira uma expresso
to austera e havia rezado to desesperadamente pela alma do irmo que
Gina chegara a ter a desagradvel sensao de que o tio se sentia feliz
em estar, por meio de suas preces, salvando Reggie da "condenao
eterna". "Talvez eu deva ir para um convento", pensou Gina. No mesmo
instante soube que seu maior desejo era desfrutar a vida e viver
intensamente entre risos e festas, como seus pais haviam vivido.
Vendo-a ainda na sala de estar, sentada no sof e enxugando as lgrimas,
a nanny tentou anim-la.
- Vou preparar-lhe uma excelente xcara de ch. Voc sabe to bem quanto
eu que chorar no leva a nada.
Gina no respondeu, mas sabia que, da mesma forma que ela, a nanny estava
sofrendo muito ao pensar no que o futuro lhe reservava.
Contando apenas cinquenta e poucos anos, a ama no pretendia
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aposentar-se. Ela estivera com o casal Borne durante vinte anos, e
no seria fcil encontrar um novo emprego na sua idade.
"No posso perd-la... no posso!", Gina pensou desesperada.
A nanny voltou com a xcara de ch, e Gina comeou a tomalo, para
agradar-lhe.
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Vai ser difcil, minha querida - dizia a nanny -, sei disso!
Mas tenho certeza de que seus pais, onde quer que estejam, iro ajud-la.
Voc ver que, afinal, as coisas no sero to difceis como est
imaginando.
- Vo ser muito piores! Se pelo menos voc pudesse ficar comigo, eu
poderia ter algum com quem conversar. Quando no houvesse ningum por
perto que nos pudesse ouvir, at poderamos rir. Mas sem voc... -
concluiu Gina, gesticulando com eloquncia.
Dirigiu-se  janela e ficou olhando a rua estreita, com suas casinhas
limpas e bem cuidadas, dispostas numa fileira bem ordenada.
- Se pelo menos voc pudesse ficar em Londres - continuou a nanny a suas
costas -, os amigos de seus pais se encarregariam de distra-la.
- Porm, ao contrrio, eu terei de me enterrar no interior de
Gloucestershire, onde, duvido, verei algum com menos de oitenta anos!
Reggie costumava dizer que o irmo j nascera um velho e que somente as
pessoas ainda mais velhas que ele eram piedosas o bastante para apreciar
suas incansveis pregaes.
- Como voc pode ser to diferente de toda a sua famlia? Elizabeth
perguntara certa vez.
- Imagino que me tenham trocado por outra criana quando eu nasci! Na
verdade, no h a menor semelhana entre mim e Edmund. Mas mame afirmou
que eu j vim ao mundo rindo!
- Sua me tinha razo! - a esposa dissera. - E o que quer que nos
acontea, querido, sempre haveremos de dar um jeito de rir.
E foi o que de fato o casal sempre fez. Chegavam a rir at mesmo quando
as contas eram mais altas do que haviam previsto.
Reggie e Elizabeth viam a vida como uma pndega, e Gina seguialhes o
exemplo e ria at quando se achava sozinha.
A nanny levou a xcara para a cozinha. Vendo-se a ss, a jovem
olhou ao redor, pensando no que iria levar consigo. Ao ver a cestinha de
trabalhos manuais da me, junto da lareira, sentiu vontade de chorar.
O mesmo aconteceu ao ver sobre a secrtaire o retrato do pai, que a me
levava para onde quer que fosse.
O xale chins todo bordado que se achava sobre o sof costumava ser usado
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para cobrir as pernas de Elizabeth sempre que repousava depois do almoo.
Ao lado estava a almofada enfeitada de rendas que Gina ajeitava sob a
cabea da me.
No andar superior estavam todas as roupas de Elizabeth, que talvez
precisassem ser vendidas. Eram lindas, porm roupas usadas no alcanavam
muito dinheiro. Tambm no serviriam para a filha, porque no eram
pretas.
A vida de Gina, sempre to feliz, agora era composta somente de
acontecimentos contrrios  felicidade. No solar havia uma riqueza de
cores: nas cortinas, nos tapetes, nas almofadas e nos canteiros. Estes
principalmente eram uma festa para os olhos, na alegria do verde-claro
dos primeiros brotos da primavera e no multicolorido das flores mais
diversas, que Elizabeth tanto amara. Gina desejava que o novo dono do
solar pudesse ser to feliz quanto ela e seus pais haviam sido.
Quem quer que comprasse a casa, o que resultasse da venda seria empregado
no pagamento das dvidas contradas por Reggie e no das pequenas contas
que Gina e a me haviam feito na vila. Lorde Calborne j comunicara 
sobrinha que havia tomado providncias para que seus advogados cuidassem
de tudo. Mesmo sem consult-la, ele dera ordens a seus criados para
empacotarem at mesmo os objetos pessoais de Gina e mand-los para The
Towers. Ela teve vontade de protestar, mas aquilo lhe pareceu to
insignificante comparado  dor e ao choque que havia sido a morte da me
que decidiu ficar calada.
Agora s lhe restava ir para The Towers, onde ficaria como uma
prisioneira, por tempo indeterminado. Todo o seu futuro lhe pareceu
cinzento, sem qualquer perspectiva de algo que pudesse quebrar a
monotonia e a austeridade da casa do tio. Nesse instante chamou-lhe a
ateno o exemplar do Times, dobrado
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sobre o sof, ao lado do xale chins. H trs dias ela no lia os jornais, por isso foi at o sof e pegou o Times, interessada na situao poltica, uma vez que
se habituara, por insistncia do pai, a manter-se informada sobre o que lia nas pginas esportivas. Fascinavam-na as notcias sobre corridas de cavalos; os donos
dos puros-sangues que competiam eram em sua maioria amigos ou conhecidos de Reginald.
Olhando o jornal, ela viu que o tio deixara dobrado na seo de empregos, e lembrou-se de que ele dissera estar interessado em contratar um secretrio para ajud-lo.
Esse pensamento f-la estremecer. De agora em diante teria de colaborar com o tio em seu trabalho missionrio, o que certamente seria aborrecido e at constrangedor.
Haveria longas cartas de queixas e pedidos dirigidas a vrios governantes e autoridades, uma vez que lorde Calborne sempre considerava insuficiente o nmero de missionrios
mantidos nas misses.
Na ltima vez que estivera na casa do tio, Gina vira a enorme pilha de impressos, em geral panfletos, oraes e instrues, que o tio mandava para as misses espalhadas
pelo mundo.
Sempre que tais impressos eram enviados para as misses, lorde Calborne mandava junto uma carta com uma srie interminvel de perguntas do tipo: "Quantas pessoas
foram convertidas?", "Quantas cerimnias religiosas so realizadas semanalmente?", "Qual a frequncia a tais cerimnias?", "Quantas pessoas foram batizadas?"
As cartas de lorde Calborne eram, na opinio de Gina, autoritrias e agressivas. O tio se achava no direito de interferir no modo de vida de pessoas que ele nem
conhecia e de dar ordens sobre como cada um devia proceder.
Mesmo achando que ele no tinha o direito de agir daquela forma, quem era ela para julg-lo?
Entre as ofertas de empregos, Gina deparou com uma que lhe chamou a ateno. Leu-a, muito interessada:
"Procura-se jovem lady para acompanhante de mocinha de
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dezessete anos. Residncia confortvel e agradvel, no campo. Cartas ao
secretrio, Ingleton House, Park Lane, Londres".
Gina deteve-se algum tempo naquele anncio, releu-o duas vezes e chegou 
concluso de que ali estava a resposta ao seu grito de socorro.
Pela primeira vez desde que o tio deixara sua casa, vislumbrava
uma esperana.
com o jornal ainda nas mos, perguntou-se por que teria de ser obrigada a
viver num lugar que detestava, quando havia a alternativa de conseguir um
emprego? Ainda na noite anterior, antes de se entregar ao choro at
adormecer, ela chegara a pensar na possibilidade de empregar-se como
professora particular. Logo, porm, afastara a ideia. Sabia que iriam
consider-la muito jovem e bonita demais.
Ainda trazia bem ntida na mente a aparncia das duas nicas preceptoras
que tivera. O restante de sua educao fora recebida de professores
locais.
As preceptoras de Gina haviam ficado no solar apenas seis meses cada uma,
porque o pai as tolerava.
- Detesto olhar para essa mulher sem graa e melanclica Reggie dissera 
esposa, referindo-se a uma das preceptoras. - No quero ver minha filha
tornar-se uma sombra de qualquer uma dessas "bruxas velhas"!
- Ora, no fale assim, querido! - censurara-o a esposa. A srta. Dawson 
extremamente inteligente.
- Mas  muito aborrecida! Bem que me esforo para ser amvel com ela,
mas, assim que a vejo entrar na sala, sinto que o cu se cobriu de nuvens
escuras!
A sra. Borne achara graa, e no tivera outra alternativa seno despedir
a srta. Dawson.
A segunda preceptora havia sido mais agradvel, mas no apreciara a vida
no campo e deixara o emprego. Gina lembrava-se de que essas duas
preceptoras j passavam, na ocasio, dos quarenta anos.
Indo postar-se diante do espelho, ela analisou a imagem ali refletida.
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 com aquela aparncia to jovem, certamente ningum teria coragem
de confiar-lhe a educao de seus filhos.
Mas aquele emprego anunciado no Times era algo diferente. Num impulso,
Gina correu para a cozinha.
- Olhe, nanny! Veja s este anncio! Vou me candidatar e ver se consigo
esta colocao. Quem sabe voc poder ir comigo.
- Est perdendo seu tempo, srta. Gina.
- Como sabe disso? Ora, nanny, se eu no tentar, no conseguirei! Vamos
at Ingleton House agora! Pelo menos terei a oportunidade de conhecer uma
das lindas casas de Park Lane.
Durante uns dez minutos Gina ficou tentando convencer nanny a acompanh-
la.
- No quero v-la metida em encrencas - argumentou a ama.
- Pode dizer o que quiser, que no me convencer.
- No consigo ver problema algum em fazer companhia a uma moa apenas um
ano mais nova do que eu.
A nanny acabara capitulando. Gina sabia que a maior preocupao da ama
era porque o anncio mencionava "uma jovem lady", e estava achando esse
ponto muito importante.
Evitando roupas pretas, Gina preferiu usar um vestido de lindo tom de
azul e um chapu que combinava com o traje. Acompanhada da ama, caminhou
um pouco at encontrarem uma carruagem de aluguel que as levou a Park
Lane.
Ingleton House chamava a ateno pela sua imponncia e tamanho.  frente
da porta principal havia um prtico e um largo Passeio para a entrada e
sada de carruagens.
- Se quer saber minha opinio - resmungou a nanny -, estamos perdendo
tempo. Pior ainda, estamos perdendo dinheiro tambm.
- Pelo menos esta casa  muito mais linda que The Towers. Mas o anncio
diz que o emprego  no campo - retrucou
a nanny, determinada a ter a ltima palavra.
Um criado abriu a porta e olhou para Gina, que acabava de desCer da
carruagem.
- Vim at aqui por estar interessada no emprego anunciado no Times - Gina
explicou.
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Havia surpresa no olhar do criado quando ele respondeu:
- Nesse caso, deve ver o sr. Watkins, senhorita.
Ele a conduziu pelo hall, depois por um corredor e abriu uma porta que
Gina constatou ser o gabinete do secretrio.
- Uma jovem lady deseja v-lo, sir - comunicou o criado. Trata-se do
anncio sobre o emprego.
Enquanto ouvia o criado falar naquele tom de voz ligeiramente arrastado,
Gina teve a desagradvel sensao de que ele no a considerava o tipo de
pessoa certa para o cargo.
Ela entrou no gabinete cheio de estantes e armrios. O secretrio olhou
para ela e ergueu-se da grande escrivaninha  qual se achava sentado.
A aparncia do sr. Watkins era exatamente a de um secretrio: cabelos
grisalhos nas tmporas, culos sobre o nariz e uma expresso de
aborrecimento prprio de um homem que lida com uma srie de problemas.
Depois de fitar Gina por um breve momento, sem esconder seu ar de
surpresa, o sr. Watkins olhou para a nanny, que se achava pouco mais
atrs da jovem, impecvel em seu vestido cinza, chapu preto e luvas
tambm pretas.
- Est interessada no emprego, senhorita? - o secretrio perguntou.
- Vi o anncio no Times cerca de uma hora atrs, e vim para c em
seguida, para ver se preencho as condies necessrias para o cargo.
Mal acabou de falar, achou que deveria t-lo feito de outra forma. Teria
sido melhor enfatizar que desejava ter mais informaes sobre o emprego,
para ento decidir se este lhe agradaria.
Mas era tarde demais para mudar suas palavras, e acrescentou, meio
hesitante:
- Minha ama veio comigo...
O sr. Watkins indicou uma cadeira para Gina, diante de sua escrivaninha,
e outra um pouco mais distante para a nanny.
- Por favor, sentem-se - ele disse delicadamente, sentando-se tambm. -
Meu nome  Watkins e sou o secretrio do conde de Ingleton.
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por um momento os olhos de Gina se arregalaram. No que tivesse ouvido
falar nele, mas ligou o nome a cavalos de raa. Era isso: devia ter lido
sobre ele nas colunas de esportes, nos jornais.
Vendo o sr. Watkins pegar uma pena, ela deu seu nome.
Sou Gina Borne, senhor.
Nesse instante ocorreu-lhe que o tio no poderia ficar sabendo do seu
paradeiro, caso conseguisse o emprego. Ele ficaria horrorizado se
descobrisse que sua sobrinha trabalhava para qualquer outra pessoa que
no fosse ele prprio. Nesse caso a faria deixar o emprego imediatamente.
Ao mesmo tempo, Gina tranquilizou-se, dizendo a si mesma que "Borne" era
um sobrenome comum, embora muitas pessoas no o escrevessem com o "e"
final.
- Talvez possa achar minha pergunta indiscreta, senhorita, mas qual seria
sua idade? o secretrio observou polidamente.
- Dezoito anos, senhor.
O sr. Watkins foi anotando os dados e em seguida sugeriu:
- Como Sua Senhoria se encontra em casa, creio que seria melhor ele mesmo
ver a senhorita. Nesse caso, no farei mais perguntas. Se o conde no-for
sair e puder de fato v-la pessoalmente, no haver o inconveniente de
precisar voltar amanh, srta. Borne.
- Isso seria timo! - Gina concordou.
Segurando seu caderno de anotaes, o secretrio deixou o gabinete. Gina
virou-se e dirigiu um sorriso para a nanny.
"Pelo menos estou aqui sentindo o sabor de uma pequena aventura", ela
pensou. "Sempre  melhor do que ficar em casa imaginando a vida de
sofrimentos que levarei com titio. Mesmo que eu no consiga este emprego,
tentarei outro. Lavar pratos ou esfregar assoalhos ser melhor do que ter
de suportar tio Edmund! "
O sr. Watkins seguiu apressado pelo corredor, atravessou o hall e no
comeo de um outro corredor abriu a porta do escritrio do conde, um
cmodo elegantemente decorado, com vrias estantes com portas de vidro e
diversos quadros de Stubbs nas paredes retratando cenas desportivas.
Sentado numa poltrona ao lado da lareira, tendo os ps apoiados num
banquinho, o conde lia a pgina de esportes do Morning Post. Ao ver o
secretrio entrar, comentou:
- Faversham foi o vencedor das corridas de Sandown ontem! Fui mesmo um
tolo em no inscrever nenhum cavalo.
- Teria tido uma grande oportunidade, milorde. Mas deve estar lembrado de
que Hewlitt estava decidido a reservar Maggie para a Corrida Real de
Ascot.
- Hewlitt tem sido cauteloso demais.  esse o seu defeito! exclamou o
conde, deixando o jornal de lado e mostrando-se um tanto mal-humorado. -
Trouxe as cartas para eu assinar, Watkins? Vou sair agora.
- Imaginei mesmo que fosse sair, milorde. Mas a razo de eu estar aqui 
outra. H uma jovem candidatando-se ao emprego anunciado no Times.
- Assim, to depressa?
- O anncio foi publicado esta manh, milorde.
- Esqueci-me de ver isso. Como  essa moa? O sr. Watkins hesitou.
- Se for uma pessoa horrorosa e que fale com um sotaque terrvel, no
perderei meu tempo com ela - o conde disse depressa.
- Pelo contrrio. Trata-se de uma pessoa muito jovem e bonita. Na
verdade, a melhor palavra para descrev-la seria "linda"!
- Ela  uma lady!
- Sem dvida alguma!
O conde tirou os ps do banquinho e levantou-se.
- Ento, o, que estamos esperando? Quero v-la!
- A ama a est acompanhando.
- Ama?
- Talvez fosse melhor eu dizer "sua velha nanny" - o secretrio corrigiu-
se com um sorriso.
- Ora, cus! - exclamou o conde, sorrindo. - Achei uma grande tolice a
ideia do anncio, mas reconheo meu erro. A menos, claro, que essa
criatura que voc descreveu como "linda" seja parte de alguma
brincadeira.
O sr. Watkins mostrou-se imediatamente preocupado.
- Isso no me passou pela cabea, milorde. Nem lhe fiz muitas perguntas,
uma vez que imaginei que Vossa Senhoria naturalmente
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gostaria de v-la e tirar suas concluses. Sei apenas o nome e a
idade da jovem.
- Bem, eu no ficaria nada surpreso se algum quisesse me pregar uma
pea. Mas ser melhor eu ver a moa. Serei capaz de julgar se  autntica
ou uma farsa.
Muito bem, milorde. Vou busc-la imediatamente.
O secretrio j ia saindo quando o conde lhe pediu:
- Deixe a velha ama no escritrio, se  que a mulher  mesmo a nanny
dessa jovem.
- Est bem, milorde.
Sozinho novamente, o conde dirigiu-se para a janela. Havia um leve
sorriso nos seus lbios. Enquanto olhava para o jardim cheio de flores
alegremente coloridas, pensava que pelo menos fazia sua obrigao, e
ningum podia exigir dele mais do que isso.
As flores que enchiam os vasos e os canteiros, o gramado bem cuidado e as
folhagens fizeram-no lembrar-se de lady Myrtle. Esperava que ela tivesse
ficado contente com o enorme buque de orqudeas que lhe mandara pela
manh.
Lady Myrtle era uma nova beldade que despertara o interesse do conde e,
na noite anterior, depois de alguma hesitao, se rendera aos avanos do
seu mais persistente perseguidor. Era ardente, e muito apaixonada. Sem
dvida o satisfizera.
Entretanto, o que mais o enchia de satisfao era haver passado o duque
de Faversham para trs, sabendo que naquele mesmo dia o importante
aristocrata iria tomar conhecimento do fato.
O duque de Faversham era conhecido por suas conquistas amorosas e por
seus excelentes puros-sangues. Ele desafiava o conde em todas as corridas
mais importantes. Em geral os cavalos de ambos corriam emparelhados,
sendo difcil dizer qual era o vencedor.
O mesmo estava acontecendo na conquista de lady Myrtle, e o conde se
congratulou por ter sido o vencedor. Ao deix-la, j de madrugada, ouviu-
a confessar excitada que ansiava por estar com ele novamente  noite.
- Entretanto, prometi a Sua Alteza que iria jantar com ele, pois Arthur
est viajando - Myrtle comentara.
- Se voc fizer isso - o conde ameaara -, serei capaz de organizar uma
serenata sob a sua janela que deixar o duque desconcertado.
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 A outra alternativa ser atirar nele quando o vir entrando em
sua casa!
Lady Myrtle nada pudera dizer, porque o conde a beijara louca e
apaixonadamente.
Agora ele tinha certeza de haver conquistado a mais excitante beldade, a
mulher mais sedutora de todo o beau ton. E isso era muito melhor do que
ter ganho uma Taa de Ouro.
"Tirei a desforra por Faversham ter-me vencido em Epsom na semana
passada", exultou o conde.
Seus pensamentos foram interrompidos com a chegada do sr. Watkins.
- A srta. Gina Borne, milorde.
24

CAPTULO II

Ao ver Gina entrando vagarosamente no escritrio, o conde ficou atnito.
Sabendo que Watkins no havia exagerado, esperava ver uma moa muito
bonita, mas a jovem que tinha a sua frente era, sem sombra de dvida,
lindssima.
No lhe passou despercebido o nervosismo e a inibio da srta. Borne. com
um sorriso que as mulheres consideravam irresistvel, deu um passo 
frente e cumprimentou-a:
- Como vai, srta. Borne? Soube que leu meu anncio e est interessada no
emprego.
Gina fez uma mesura antes de responder:
-  verdade. Li sobre o emprego no Times h bem pouco, milorde, e
espero... estar qualificada para ele.
Notando que ela parecia um tanto apreensiva, o conde quis deixla mais 
vontade e sugeriu:
- Por que no nos sentamos? Ento lhe explicarei quais os requisitos para
o emprego em questo.
Se ele havia ficado atnito diante da beleza de Gina, com esta aconteceu
o mesmo. Vivendo no campo, ela convivera com cavalheiros da idade do pai
ou mais velhos.
Alm de constatar que o conde era jovem, o que no esperava, achou-o
extremamente belo, muito elegante, bem vestido e, ao mesmo tempo, msculo
e com uma aura de autoridade.
Sem saber explicar por qu, sentiu-se subitamente tmida, o que no era
comum acontecer com ela, estando acostumada a sair com os pais e a
participar dos almoos que eles ofereciam.
Entretanto, de forma alguma havia imaginado que seu possvel empregador
tivesse aquela aparncia.
Gina cruzou as mos sobre o colo e olhou para o conde, que
tambm a fitava, sem poder crer que a moa sentada a sua frente fosse
real. Por um momento fez-se silncio. Depois ele perguntou:
- Creio que a senhorita no est brincando comigo, no  mesmo?
- Brincando... com Vossa Senhoria? - respondeu ela, espantada.
A surpresa de Gina era to autntica que o conde teve de admitir que se
enganara. Porm, precisava ter plena certeza.
- O que estou querendo dizer  que no parece ser o tipo de pessoa
interessada num emprego de acompanhante. Da eu concluir que pudesse ter
diante de mim alguma atriz que estivesse representando esse papel a mando
de alguns amigos meus.
A explicao parecia to fantstica que Gina no conteve o riso, cujo som
cristalino deliciou o conde.
- Asseguro-lhe, milorde, que estou ansiosa para tornar-me a acompanhante
de uma jovem lady, se isso for possvel.
- Nesse caso, talvez eu lhe deva desculpas por ter duvidado de suas
verdadeiras intenes.
- Compreendo que meu comportamento no o tenha convencido, mas  que
nunca procurei emprego antes.
- E por que faz isso agora?
Ela desviou o olhar, pensando no que deveria responder.
- Sou rf, senhor, e na verdade... no tenho para onde ir.
- Como  possvel? Certamente tem diversos parentes! Sendo observador, o
conde notou o estremecimento de Gina.
- No h nenhum com quem eu possa viver... feliz - ela respondeu com
certa hesitao.
- E acredita que se sentir feliz como acompanhante de uma mocinha?
Gina sorriu antes de responder:
-  claro que isso vai depender dessa mocinha. Creio que me sentirei
muito bem ao lado de uma pessoa jovem como eu. Acho que vai ser muito
interessante.
Sem deixar de fit-la, o conde ainda continuava com uma leve suspeita;
realmente, a srta. Borne no era a pessoa por quem queria se fazer
passar. Como nem ele mesmo podia atinar com o que
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havia de estranho em relao  identidade dela, decidiu falar sobre o
emprego.
Deixe-me explicar-lhe o que desejo. Minha prima, de quem
sou o tutor, vive no campo por no estar bem de sade; tambm no pode
tomar parte nas diverses que h em Londres.
- Sua prima est com alguma doena?
- Suponho que sim - o conde respondeu com vagar -, mas, na verdade, nem
os mdicos nem eu mesmo conseguimos compreender o que h com ela, e por
que vive naquele estado letrgico, sem se interessar por nada. - Formou-
se uma ruga profunda entre as sobrancelhas do conde. - Na minha opinio,
 essencial que minha prima saia dessa apatia. Quando isso acontecer,
quero trazla para Londres e apresent-la  sociedade.
- Compreendo, e sinto que poderei ajud-la, se Vossa Senhoria me permitir
faz-lo.
- No vejo por que fazer qualquer objeo. A no ser que voc considere a
vida no campo enfadonha demais.
- Oh, no! Adoro o campo, onde sempre vivi. O conde arqueou as
sobrancelhas.
- Imagino que goste de cavalgar! Os olhos de Gina brilharam.
- Terei a oportunidade de cavalgar com a jovem lady, caso eu seja sua
acompanhante?
- Certamente, e espero que voc estimule minha prima a apreciar um bom
passeio a cavalo.
Gina disse a si mesma que se empenharia em fazer a mocinha adorar
cavalgar tanto quanto ela prpria. Como que lhe adivinhando o pensamento,
o conde observou:
- Creio que vai gostar de Ingle Priory; encontrar em minha propriedade
tudo o que se pode desejar numa casa de campo. Quando poder ir para l?
- Quer dizer que... ficarei com o emprego? - Gina perguntou cheia de
entusiasmo.
- No vejo por que no. Tenho pressa, pois minha prima, lady Mary Ingle,
que cuidava de minha pupila, foi obrigada a deix-la. Dessa forma,
ofereo-lhe o emprego, desde que suas referncias sejam satisfatrias.
27
Gina ficou rgida. No havia pensado em referncias. Passoulhe pela
mente como um relmpago que, no caso de o conde fazer perguntas sobre
ela, todos iriam dizer que seu tio e tutor era o responsvel pela
sobrinha rf. Sem dvida ficariam surpresos ao saber que lorde Calborne
no estava cuidando dela.
Ela no tinha ideia de que seus olhos reveladores a traam. Vendo a
angstia estampada neles, o conde indagou:
- Presumo que esteja fugindo de algum, srta. Borne. De quem se trata?
Imagino que seja um homem.
Gina respirou fundo.
- Por favor... Terei mesmo que lhe dar referncias? - Havia medo em sua
voz.
-  o costume.
Ansiosa, ela pensou que talvez o dr. Emerson ou amigos de seus pais
concordassem em manter segredo sobre sua identidade. No mesmo instante
descartou tal possibilidade.
Era to grande seu desalento que se sentiu como se, depois de ter ganho
as alturas, a imagem da gua de uma fonte que, arremessada em direo ao
cu, tivesse sido tocada por um raio de sol, se precipitasse na terra
novamente.
" intil, terei de ir para The Towers e trabalhar para tio Edmund. "
A aflio daquele rosto lindo era to bvia que, inclinando-se para a
frente, o conde perguntou com bondade:
- O que a preocupa? Conte-me por que est fugindo. Gina apertou tanto as
mos que as juntas dos dedos ficaram
brancas.
- No posso... Por favor, confie em mim. Prometo que no o desapontarei.
- Suponho que tenha vindo at mim buscando nesse emprego uma espcie de
asilo, de refgio. - A voz dele era bem suave. Sei que est fugindo de
algum que a amedronta.
- Estou com muito medo... - Gina admitiu.
- Se eu estiver disposto a confiar em voc, quero que me prometa algo.
Uma esperana brilhava nos olhos de Gina quando ela perguntou:
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Ento... confiar em mim?
S se me prometer algo, como j lhe disse.
- Prometer o qu?
Contar-me a verdade e procurar-me caso se sinta ameaada
ou caso tenha problemas.
- Tem a minha promessa. Quero que saiba que o que est acontecendo agora
no  de forma alguma vergonhoso, ou algo errado... S desejo fugir da
escurido, de uma coisa deprimente, que me tornaria muito infeliz!
A nota comovente na voz dela fez o conde decidir:
- Muito bem. Confio em voc. Se lhe for conveniente, poder partir para
Ingle Priory amanh.
Gina deu um pequeno grito de pura felicidade.
- Oh, obrigada! Muito obrigada! Como pode ser to maravilhoso? No tenho
palavras para expressar minha gratido.
Diante de tamanha euforia, o conde disse a si mesmo que precisava ser
mais cauteloso.
- Devo lembrar-lhe de que, se a senhorita e lady Alice no se derem bem,
dever deixar o emprego sem qualquer ressentimento.
- Alice  o nome de sua pupila?
- Seu nome completo  lady Alice Hanbury. Seu pai  o marqus de Hanbury
Cross, e sua me era minha prima-irm. O marqus, viajante inveterado,
morreu no ano passado num terremoto ocorrido na Turquia. Antes de sua
morte ele j havia escrito recomendando-me sua filha como minha pupila,
pois Alice perdera a me quando era ainda bem nova.
- Alice  uma rf... como eu - Gina murmurou.
- Como v, vocs tm esse lao em comum.
O conde no disse que o marqus de Hanbury Cross havia sido um louco
extravagante, perdulrio, um mau-carter, que s deixara para a filha
nica um monte de dvidas.
Numa carta que chegara s mos do conde pouco antes da morte do marqus,
este havia escrito:
"Voc  muito rico, caro rapaz, e poder pagar o que eu devo, como j fez
outras vezes. Quero que tambm cuide de Alice. Ela vai tornar-se uma
beldade, e sugiro que se case com ela dentro de
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um ano. Se ela for to boa esposa como foi a me dela, voc pode se
considerar um homem de sorte! Seja como for, voc ter de se casar algum
dia, e ningum poder dizer que o sangue dela no seja to bom quanto o
seu! "
Era bem tpico de Willie escrever uma carta impertinente como aquela.
Ele pagara sem reclamar as dvidas de Willie, que montavam a uma soma
exorbitante, e trouxera Alice, que se encontrava na Turquia, de volta
para a Inglaterra.
Ao ver a garota, constatou que ela era muito parecida com a me, que
havia sido uma mulher de extraordinria beleza. Na verdade, a me de
Alice conquistara toda a sociedade londrina assim que deixara os bancos
escolares.
Aps uma semana com Alice em Ingle, o conde afeioou-se tanto a ela e
comeou a achar que no seria m ideia despos-la. Afinal, a famlia h
algum tempo o pressionava, e o aborrecia tanta insistncia para que se
casasse.
No se interessando por jovenzinhas, o conde sempre evitara qualquer
relacionamento que acabasse levando-o a trocar o celibato por um estado
civil que de forma alguma o atraa: o de casado.
Ao deixar Eton, ele havia entrado para a Universidade de Oxford, e depois
passou a servir na Cavalaria da Guarda at herdar do pai o ttulo de
conde, aos vinte e cinco anos de idade.
O falecido conde deixara tambm ao filho uma fortuna imensa, com a qual
ele passou ento a divertir-se e a adquirir as boas coisas que o dinheiro
podia comprar.
Em pouco tempo suas cocheiras se encheram dos mais espetaculares cavalos
de corridas, e sua vasta propriedade no campo era um modelo no condado.
As festas oferecidas em Ingle Priory eram sensacionais, e receber um
convite para uma delas era a ambio de todos nos mais altos crculos
sociais. O conde era um organizador perfeito e supervisionava com
exigncia os menores detalhes.
Tudo o que o cercava devia ser perfeito, e para isso ele no poupava
esforos.
No momento, a exceo era Alice.
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Havendo decidido que ela seria a esposa ideal, o conde planejara lev-la
para Londres em maio e deix-la a cargo da condessa viva, sua av, que
se responsabilizaria pela apresentao de lady Alice em Buckingham
Palace. A av tambm havia prometido ao neto ser a chaperon de Alice
enquanto esta estivesse em Ingleton House.
Infelizmente, pouco depois de ter chegado a Ingle Priory, Alice pareceu
ir perdendo aos poucos o interesse por tudo o que a cercava.
A princpio o conde atribura aquela apatia ao fato de ela ter perdido o
pai h to pouco tempo. Alm disso, Alice chegara  Inglaterra em
novembro, e era natural que ficasse mais infeliz e deprimida naquela
poca do ano. com certeza ela iria recobrar-se e estaria pronta para
divertir-se quando chegasse o vero.
Para surpresa de todos, no entanto, em vez de se recuperar e sentir
novamente a alegria de viver, Alice tornava-se cada vez mais indiferente
ao que se passava ao seu redor.
Cada vez mais encantado com a beleza da pupila, o conde j imaginava que
modelo de vestido ela usaria quando debutasse, e at j a via trajando-se
com muita elegncia quando se tornasse sua esposa.
As jias Ingle eram famosas. A tiara de diamantes era uma pea de tamanha
beleza e valor que superava qualquer outra usada por uma dama da corte na
abertura do Parlamento. O conjunto de safiras tambm era considerado o
mais belo de pas.
Alice, porm, no demonstrou o menor interesse quando as jias foram
mencionadas, e no fez nenhum esforo para v-las.
Nas ocasies em que o conde ia para Ingle Priory e recebia alguns
amigos, a pupila se reunia aos hspedes e lhes fazia um pouco de
companhia, porm, assim que o jantar terminava, ela se retirava
discretamente, nem esperava sequer que os cavalheiros se juntassem s
senhoras.
Durante o dia, mostrava-se em geral muito esquiva, e o conde quase no a
via. Intrigado, ele no se cansava de fazer conjecturas sobre o que
poderia estar havendo com sua pobre pupila.
No encontrando resposta conversou com o mdico da famlia e com seu
secretrio. Foi o sr. Watkins quem sugeriu que lady Alice tivesse a
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companhia de pessoas de sua idade.
- O que quer dizer com isso? - interpelara o conde com certa rispidez.
- Bem, milorde, lady Alice nem completou dezoito anos, ao passo que
Vossa Senhoria e seus amigos so alguns anos mais velhos.
- Est insinuando que Alice nos acha aborrecidos? - o conde perguntou com
um ar de incredulidade.
O sr. Watkins sorriu.
- No, claro que no, milorde. S quis dizer que uma adolescente teria
mais coisas em comum com pessoas da mesma idade.
Dessa conversa havia resultado o anncio publicado no Times, apesar de o
conde no concordar com isso. Achava que o anncio s atrairia
solteironas de idade incerta que desejavam se fazer passar por jovens.
Pior do que isso, ele acabaria sendo assediado por mulheres que s
estavam interessadas numa oportunidade para conhec-lo... E s Deus sabia
como havia mulheres desse tipo!
Jamais lhe ocorrera que uma jovem adorvel como Gina Borne fosse aparecer
diante dele. Realmente, as duas jovens juntas iriam parecer duas deusas
descidas do Olimpo.
Era verdade que o tipo fsico das duas era diferente. Alice era como a
me, tinha cabelos negros de reflexos azulados. O prprio conde tinha
cabelos dessa cor e reconhecia que esta era uma caracterstica dos Ingle.
Contrastando com os cabelos, a pele dela era muito alva, e os olhos,
verdes e lmpidos como um regato de montanha.
Analisando Gina, sentada a sua frente, descreveria seus cabelos cor de
ouro como se fossem os primeiros fulgores da alvorada ao nascer do dia;
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seus olhos tinham o azul de um cu de vero.
Gina e Alice juntas seriam, sem dvida, sensacionais.
No entanto, se sua pupila parecia estar sempre meio adormecida, Gina, ao
contrrio, era luminosa. Havia ao seu redor uma aura radiosa, como se ela
fosse um raio de sol ou uma gota cintilante de orvalho.
"Ora, estou sendo muito potico!", o conde pensou, zombando de si mesmo.
Ao mesmo tempo, admitia que iria ser extremamente interessante ver as
duas jovens lado a lado. Num tom impessoal, dirigiu-se a Gina:
- Pode tratar de tudo o que se fizer necessrio com o sr. Watkins. Ele
lhe dir qual ser seu salrio.
Quando a mo do conde estava prestes a alcanar o cordo da sineta que
pendia ao lado da lareira, Gina disse apressadamente:
- Um momento, milorde, tenho algo a lhe pedir.
- O que ?
- Por favor... Eu poderia levar minha ama comigo? A nanny est conosco
desde que eu nasci, e ainda no quer se aposentar. Nem que quisesse, eu
no teria meios de pagar-lhe uma aposentadoria.
- Est dizendo que no tem dinheiro?
- Nem um pni. E no posso abandonar a nanny... Havia sinceridade e
genuna aflio em sua voz. O conde se
comoveu.
- Imagino que sua ama poder trabalhar em Ingle Priory como uma criada
particular. No vejo por que ela no possa acompanh-la, srta. Borne.
Foi to grande o alvio de Gina que seu rosto ficou radiante.
- Nunca poderei agradecer-lhe o bastante, milorde! O conde sorriu e puxou
o cordo.
- Parece estar muito segura de que se sentir feliz em Ingle Priory. S
no se esquea de que sua maior preocupao deve ser tornar minha pupila
feliz e interessada no que a cerca.
Tenho certeza de que serei capaz de fazer isso - assegurou Gina, cheia de
confiana em si mesma.
O secretrio apareceu imediatamente no escritrio, e o conde comunicou-
lhe:
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A srta. Borne estar pronta para ir para Ingle Priory amanha. Sua ama a
acompanhar. Notifique a casa sobre a chegada de ambas e providencie uma
carruagem confortvel para lev-las.
- Est bem, milorde.
Deixarei todos os outros detalhes ao seu encargo, Watkins. Dizendo isso, o
conde estendeu a mo para Gina.
- At logo, srta. Borne. Eu a verei em breve em Ingle Priory. Pretendo ir
para l dentro de poucos dias.
Gina tomou-lhe a mo e fez uma mesura.
- Tudo isto  to maravilhoso que tenho a impresso de estar sonhando.
Agradeo-lhe do fundo do corao por ter permitido que eu tenha a nanny
ao meu lado.
Ela deixou o escritrio acompanhada pelo secretrio, que trazia nos
lbios um sorriso discreto, certamente feliz por ter sido sua a ideia do
anncio que oferecia o emprego.
com um brilho nos olhos, o conde voltou para sua escrivaninha, dizendo a
si mesmo:
"Os milagres ainda acontecem".
O assunto da acompanhante de lady Alice estava resolvido, e ele passou a
fazer planos para aquela noite, que passaria com Myrtle.
Mas, em vez disso, viu-se pensando em Gina e na sua beleza
extraordinria...
Viajando numa carruagem extremamente confortvel, puxada por dois cavalos
perfeitamente emparelhados, Gina disse pela cen tsima vez:
- Mal posso acreditar que tivemos tanta sorte!
- Eu digo o mesmo - concordou a nanny. - Mas esta noite perdi o sono s
de pensar no que lorde Calborne ir dizer.
- Tio Edmund nada dir, uma vez que no vai descobrir onde estamos.
Apesar de ter respondido com firmeza, Gina reconhecia que estava com
medo. Escrevera uma carta ao tio e esperava ter sido convincente.
A carta dizia que, embora Gina estivesse ansiosa para ficar morando com
ele e a tia em The Towers, acabara de receber um convite para ir passar
uma temporada com uma amiga de sua me, e no pudera recus-lo.
E continuava:
"Ela foi sempre muito afeioada a mame, e ficou desalentada ao saber de
sua morte. Pediu-me para ficar uma temporada em
33
sua casa para falarmos sobre os" velhos tempos. Tenho certeza, tio
Edmund, de que ficar feliz em saber que estarei bem e entre amigos. Em
tais circunstncias, no posso precisar a data do meu regresso. Voltarei
a escrever-lhe assim que souber que a amiga de mame permitir que eu
volte para casa. Lembranas para tia Edith.
Da sobrinha afeioada, Gina".
Gina detestava ter de mentir, porm precisava tranquilizar o tio quanto
ao seu bem-estar. Certamente ele demoraria algumas semanas para comear a
estranhar a falta de notcias dela. S ento pensaria no que fazer.
Ao descer, naquela manh, Gina viu a elegante carruagem esperando  porta
de sua casa, e sentiu-se a pessoa mais afortunada deste mundo.
Ela e a nanny j haviam deixado a bagagem arrumada, e os dois bas foram
colocados e amarrados na parte de trs da carruagem.
com aqueles extraordinrios cavalos puxando a carruagem, chegariam a
Ingle Priory, que ficava em Oxfordshire, no comeo da tarde.
Pararam para almoar numa estalagem de muda de cavalos, onde os animais
j cansados foram substitudos por outros. Estes eram ainda mais rpidos
do que a parelha que havia puxado a carruagem de Londres at a estalagem.
Gina sups que j estariam bem prximas do seu destino quando a carruagem
parou subitamente. Olhou pela janela para ver o que acontecera e viu a
estrada bloqueada por um faetonte e uma carroa.
O cavalheiro que conduzia o faetonte fora surpreendido, ao fazer uma
curva, pela carroa conduzida por um fazendeiro, que surgira
inesperadamente, vindo da direo oposta. As rodas dos dois veculos
tinham ficado presas uma na outra.
Sem ter um cavalario para ajud-lo, o cavalheiro lutava com dificuldade
para controlar seu cavalo, que, muito assustado, empinava-se.
Vendo que podia ajudar, sem mesmo refletir sobre o assunto,
Gina abriu a porta da carruagem e saltou, indo depressa pela estrada para
segurar as rdeas do animal desassossegado. Falando com o cavalo com voz
suave e segurando-o com firmeza, como aprendera com o pai, acalmou-o.
O criado do conde tambm havia descido da carruagem e se aproximara para
ajudar, junto com vrios homens que surgiram de repente, no se sabe de
onde, a soltar as rodas presas dos dois veculos.
Terminado o servio, constatou-se que tanto o faetonte quanto a carroa
no haviam sido danificados. O dono do faetonte amarrou as rdeas do
cavalo e, descendo, veio conversar com Gina, mostrando-se realmente
surpreso ao ver seu animal agora muito manso. Era estranho ver uma
criatura adorvel como aquela surgir no momento exato para ajud-lo.
- Como posso lhe agradecer por vir ajudar-me quando eu mais precisava? -
ele perguntou tirando o chapu.
Gina sorriu.
- Notei que seu animal parecia assustado e que o senhor nada podia fazer.
- Foi tolice minha no ter previsto que nas estradas do campo tambm
podem acontecer acidentes. Em geral no nos lembramos de que h gente
descuidada em todas as curvas.
- No  to grave assim - Gina respondeu, rindo com espontaneidade. -
Todavia, admito que o pessoal do campo acredite que s eles so os donos
da estrada.
- Tem razo. Moro nesta regio, e espero que a senhorita no esteja s de
passagem, mas tenha vindo para ficar.
Imediatamente ela lembrou o motivo que a trouxera para ali e mostrou-se
um tanto nervosa. Olhando para a carruagem do conde, explicou:
- Estou a caminho de Ingle Priory.
- timo! H tempos no recebo uma notcia to boa! Meu nome  Carstairs,
sir Charles Carstairs. Por coincidncia, sou o vizinho mais prximo do
conde de Ingleton.
Gina fez uma ligeira reverncia.
- Sou Gina Borne.
- Prometo-lhe, srta. Borne, que nos veremos novamente, e muito
obrigado por ter vindo em meu auxlio como se fosse o anjo da salvao!
Meio embaraada, ela dirigiu-lhe um breve sorriso e caminhou para a
carruagem, onde o criado j se achava a sua espera, segurando a porta
aberta.
Sir Charles, por sua vez, tomou seu assento no faetonte e conduziu-o para
a margem da estrada, permitindo assim a passagem da carruagem do conde;
ao v-la passar, tirou o chapu para Gina, que lhe acenou com a mo.
- Devia ter mais cuidado - a nanny repreendeu-a. - Aquele cavalo indcil
poderia t-la machucado.
- J controlei cavalos bem mais perigosos, nanny. Sei que se papai
estivesse em meu lugar teria feito o mesmo.
- Mas seu pai era um homem! - a ama respondeu acidamente, sabendo que no
seria contestada.
Pouco antes das trs da tarde elas passaram pelo porto imponente, todo
de ferro trabalhado com ponteiras douradas, e atravessaram em seguida o
parque, onde cervos pastavam sob velhos carvalhos.
Ao ver Ingle Priory, Gina deu um pequeno grito de alegria. A casa era
maravilhosa, imponente, com suas janelas de vidraas com caixilhos em
forma de losangos e seus tijolos que, pela ao do tempo, haviam
adquirido uma tonalidade envelhecida, acinzentada.
Num nvel abaixo da casa, que se achava construda numa colina, com um
bosque de altos pinheiros para proteg-la, via-se um grande lago.
Por intermdio do sr. Watkins, Gina ficara sabendo que Ingle Priory fora,
no passado, um mosteiro. Durante o reinado de Henrique VIII, com a
extino das comunidades religiosas, a propriedade passara para as mos
do primeiro conde de Ingleton, que tirou do prprio nome do mosteiro o
seu ttulo de nobreza.
Os pais de Gina haviam sido hspedes em muitas casas ancestrais
importantes e interessavam-se muito por elas. Pela me, Gina ficara
sabendo que na maioria das casas bem antigas, no tempo dos Tudor, havia
cmodos secretos onde se abrigavam padres perseguidos. Graas a esses
esconderijos, os religiosos se livraram da Priso e das torturas
ordenadas pela rainha Elizabeth.
Esses esconderijos tambm haviam sido usados por monarquistas
perseguidos pelas tropas de Cromwell.
Os cavalos pararam diante da porta principal da casa. Gina foi recebida
pelo mordomo, um senhor de cabelos brancos e maneiras pomposas. No hall
havia inmeros criados trajando a libr do conde.
Ela e a nanny foram levadas para o andar superior, onde duas criadas as
esperavam; uma acompanhou Gina a seus aposentos, enquanto a outra se
encarregou de levar a ama para os alojamentos dos serviais.
Embora no fosse luxuoso como os quartos dos hspedes, o quarto de Gina
era muito bem mobiliado. Ela sentia-se feliz por estar naquela casa
adorvel e no na sombria e triste The Towers.
A caminho de seu quarto, no perdeu um detalhe, encantandose com os
balastres entalhados que apoiavam o corrimo da escadaria, com os
magnficos quadros e o mobilirio requintado. Seria maravilhoso poder
conhecer melhor aquela casa; era uma pena a me no estar viva para
apreciar tambm toda aquela beleza.
- Assim que estiver pronta, senhorita - a criada disse, interrompendo-lhe
os pensamentos -, o sr. Newman a levar ao encontro de lady Alice, no
salo azul.
Gina deduziu que o sr. Newman devia ser o mordomo. Em poucos minutos ela
lavou as mos, tirou o chapu e arrumou os cabelos, ficando pronta para
descer.
Enquanto seguia ao lado de Rose, a criada que a atendera, Gina pensava na
nanny, porm logo se tranquilizou; a ama sabia cuidar-se.
Ao alto da escada achava-se um criado, que conduziu Gina at Newman; este
a precedeu, indo abrir a porta do salo azul, um lindo cmodo, no grande
demais, porm ricamente mobiliado, cujo nome viera do retrato que pendia
sobre o aparador da lareira, no qual se via o quarto conde de Ingleton
ainda criana, usando um traje de cetim azul.
O pensamento de Gina, no entanto, estava voltado inteiramente para a
jovem que a esperava. Logo viu lady Alice deitada no sof, junto 
janela, com os ps cobertos por um xale de seda. Ela no fez nenhum
esforo para se erguer ao ouvir a voz do mordomo.
- A srta. Borne, milady!
Gina atravessou o salo, achando que talvez lady Alice estivesse
dormindo. Ao chegar bem perto da jovem, constatou que ela era
linda.
Fico feliz em conhec-la. J fui informada de sua chegada...
- lady Alice murmurou em voz quase inaudvel.
Pegando a mo que ela lhe estendia, Gina notou como estava fria e mole.
Sem pedir permisso, sentou-se perto do sof e foi dizendo com
entusiasmo.
-  emocionante poder estar nesta casa adorvel! Sinto muito voc no
estar bem.
- Estou muito cansada... - A voz de lady Alice parecia vir de muito
longe.
- com certeza tambm me sentirei cansada esta noite, devido  longa
viagem. Mas agora gostaria de saber tudo sobre esta casa e ver como ela
, inteirinha.
Lady Alice no respondeu; olhou vagamente para a recmchegada, como se
lhe fosse difcil focaliz-la bem.
- Gostaria que me contasse tantas coisas! - continuou Gina, na tentativa
de fazer a enferma reagir. - Talvez seja interessante voc me dizer qual
 seu maior interesse.
A resposta no veio imediatamente; esforando-se para falar, lady Alice
disse afinal:
- O curador poder falar-lhe sobre a casa... Vai encontr-lo na
biblioteca...
- Seria bem melhor se voc mesma me contasse o que sabe. Tenho certeza de
que gosta muito de morar aqui.
Lady Alice ficou pensativa por um momento.
- Vivi muito feliz com papai e mame... mas agora estou cansada demais.
Estava sendo muito difcil manter aquela conversa, e foi com alvio que
Gina viu que serviam o ch mais cedo, pois, como Newman explicou, ela
devia apreciar comer e beber alguma coisa dePois da viagem.
A mesa foi posta ao lado do sof em que lady Alice se achava. Esta, no
entanto, no fez o menor esforo para servir-se, e Gina cuidou disso.
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- Deseja acar? Leite? O que prefere comer? - Enquanto fazia as
perguntas, ela olhou para a mesa farta, e lembrou-se que ultimamente ela
e a nanny faziam refeies bem magras.
Chegava a ser difcil escolher entre os sanduches variados, os bolinhos
de aveia e diversos outros, quentinhos, o bolo de chocolate e outro bolo,
confeitado com glac branco e rosa.
- O que deseja que eu lhe sirva? - Gina perguntou.
- No tenho fome...
A muito custo a enferma aceitou um sanduche, deixando-o de lado depois
de dar nele uma pequena mordida.
Gina, porm, provou de tudo, e at comeria mais, no fosse ter ficado sem
graa por demonstrar seu apetite diante da inapetncia de lady Alice, que
recusou tudo o que lhe foi oferecido.
Terminado o ch, Gina no desistiu de continuar puxando conversa com
aquela jovem aptica.
- Seu tutor me disse que eu teria permisso de cavalgar, caso fosse para
acompanhar voc. Estou to ansiosa para voltar a montar que nem tenho
palavras para diz-lo!
O desinteresse de lady Alice era patente.
- Papai era um cavaleiro extraordinrio, e eu sempre costumava cavalgar
ao lado dele - Gina explicou. - Porm, depois de sua morte, tivemos de
vender nossos cavalos. Acho to triste morar no campo e ter de ir a p a
todos os lugares!
- Sinto-me cansada demais para cavalgar...
- No  de surpreender, uma vez que voc no se alimenta! O cozinheiro
poder preparar seus pratos preferidos, assim voc comer o suficiente
para ficar forte novamente.
- Eu gostava muito da comida na casa de papai, mas desde que vim para c
sinto-me to cansada...
A voz de lady Alice pareceu ir morrendo, e a ltima palavra foi repetida
algumas vezes num tom quase inaudvel. Desesperada, Gina ficou imaginando
o que poderia fazer por aquela pobre moa.
"Falarei com a nanny", disse a si mesma, mas sentia-se desalentada. O
conde, sem dvida, iria consider-la um fracasso.
Durante mais algum tempo ela conversou com lady Alice, at esta dizer que
desejava subir e descansar at o jantar.
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Gina no conseguia compreender como uma pessoa que ficava deitada o dia
inteiro pudesse querer descansar.
No entanto, subiu com ela a escada, bem devagar, e deixou-a em seu
luxuoso quarto. Em seguida tomou rapidamente o corredor, em direo ao
seu prprio quarto, onde encontrou, aliviada, a nanny sozinha, pois as
criadas haviam descido depois de desfazer toda a sua bagagem.
- Que bom v-la aqui, nanny ! Quero lhe contar tantas coisas!
- L na sala da governanta disseram-me que acham muito estranho o que
est acontecendo com Sua Senhoria. Ela se mostra cada vez mais abatida,
desde que veio para c.
- O que estaria causando essa apatia?
- No sei. Mas, se quer saber minha opinio, esta casa me d arrepios.
- Arrepios? - Gina perguntou sem esconder o espanto.
- As arrumadeiras estavam falando sobre fantasmas, e j me avisaram que
se eu ouvir rudos estranhos  noite no devo prestar ateno a eles!
- Imagino que as pessoas acreditam que em todas as casas antigas haja
fantasmas nos painis das paredes e atrs de cada porta! - exclamou Gina,
rindo.
- Bem, elas tinham muito o que dizer sobre este fantasma em particular -
a nanny retrucou.
Quando Gina ia caoar da ama, ouviu-se uma batida  porta, e em seguida
uma mulher entrou. Pelo vestido de seda preta e a corrente de prata com
as chaves, presa  cintura, elas logo viram que se tratava da governanta.
A mulher era jovem, o que no era comum numa governanta; alm disso, era
muito bonita, embora sua expresso fosse um tanto dura.
- Boa tarde, srta. Borne - ela cumprimentou numa voz desagradvel. -
Lamento no estar aqui para receb-la, mas tive de ir a Oxford comprar um
remdio para lady Alice. - Ela se aproximou. - Sua Senhoria, o conde,
informou-me sobre a vinda da senhorita para fazer companhia a lady Alice,
o que na minha opinio seria desnecessrio, uma vez que tudo o que Sua
Senhoria necessita  de tranquilidade e repouso.
Fitando-a, Gina no s viu nos olhos dela muita hostilidade como tambm
surpresa por sua aparncia.
- Meu nome  Denver... sra. Denver. Tenho sob minha responsabilidade esta
casa e todas as pessoas que aqui se encontram. Isto indica que Sua
Senhoria, o conde, confia inteiramente em mim!
- Esta  a srta. Turner, minha antiga ama, que est comigo desde que
nasci - Gina disse apresentando a nanny.
O olhar que a sra. Denver dirigiu  nanny era obviamente hostil.
- Espero que voc cuide da srta. Borne, poupando dessa maneira uma de
minhas criadas de servio extra.
-  para isto que estou aqui - respondeu a nanny calmamente.
O olhar que as duas mulheres trocaram disse a Gina que a guerra estava
declarada. Num movimento brusco e com uma expresso quase colrica, a
sra. Denver dirigiu-se para a porta e voltou-se para recomendar antes de
sair:
- Assim que estiver instalada, srta. Borne, eu a informarei sobre tudo o
que deve ser feito regularmente com lady Alice. Visto tratar-se de ordens
mdicas, espero que a senhorita no interfira em hiptese alguma!
Sem esperar resposta, ela deixou o quarto, fechando a porta bruscamente
atrs de si.
Gina olhou para a nanny.
- Por essa eu no esperava. Essa mulher no ficou nada satisfeita com a
nossa presena aqui!
-  verdade - a nanny concordou. - Temos de ser muito cautelosas, srta.
Gina, e, se eu estiver enganada, ela est preparada para lhe criar
problemas!
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CAPTULO III

Ao descer para o jantar, lady Alice estava extremamente bonita em seu
vestido cor-de-rosa, apesar de muito plida.
Gina notou o tremendo esforo que a jovem fizera para deixar o leito,
preparar-se e descer. Ao v-la entrando no salo azul, disse
impulsivamente:
- Como voc est linda! Seu vestido  maravilhoso! Lady Alice pareceu
feliz com o elogio.
- Estive admirando este salo - Gina continuou -, e conclu que, quanto
mais analiso Ingle Priory, mais fico encantada!
- Sim...  uma casa magnfica - concordou lady Alice numa voz fatigada,
deixando-se cair no sof.
- Gostaria que me contasse o que a faz sentir-se to exausta
- Gina pediu, sentando-se ao lado dela. - O conde me adiantou que os
mdicos nada acharam de errado com voc.
- Eu nunca fui assim... At costumava andar milhas com papai... Juntos
escalvamos montanhas... Mas agora s tenho vontade de dormir - lady
Alice falou devagar, parecendo forar as palavras a sarem dos lbios.
O jantar foi servido apenas pelo mordomo e por dois criados, na pequena
sala de jantar. Enquanto comia e se maravilhava com a mesa enfeitada de
flores e com um candelabro, Gina observava que lady Alice mal mexia no
que lhe ia sendo posto no prato.
Receando parecer gulosa, Gina apreciou todos os pratos, ao passo que lady
Alice mal comia. Quando ambas se encontraram sozinhas na sala, ela
aproveitou a ocasio para dizer:
- Creio que um dos motivos por que voc sente tanto cansao  que no se
alimenta. Tenho certeza de que seu pai diria o mesmo se vivesse. Como
explorador e tendo viajado muito, ele no ignorava que para tais
atividades se necessita de muita energia.
- Reconheo que tudo o que est dizendo  verdade... Mas no consigo
engolir a comida... por mais que tente.
Apesar de supor que alguma coisa estava errada, Gina preferiu no
aborrecer a jovem lady com argumentos. Para ter um assunto, contou-lhe
sobre o choque entre o faetonte de sir Charles Carstairs e a carroa do
fazendeiro.
Lady Alice mostrou-se interessada, porm logo se desculpou e quis subir
para ir deitar-se. Gina a acompanhou at o quarto, que achou muito
bonito, com suas paredes cobertas de painis e a cama de cortinas azuis
pendentes de uma corola com anjinhos dourados. Entusiasmada, comentou:
- Este quarto  perfeito para voc! Durma com os anjos. Quando acordar,
deve sentir-se como uma deusa flutuando nas nuvens, muito alto no cu!
Pela primeira vez lady Alice deu uma breve risada.
- Quando papai e eu estivemos na Grcia, eu costumava fingir que era uma
deusa que havia escolhido viver na terra entre os mortais e me
transformara em mortal tambm.
- Talvez voc seja mesmo uma deusa. Deve haver fotografias retratando
pinturas de deusas na biblioteca. Vou ver se encontro uma que se parea
com voc.
A jovem lady riu novamente.
A criada particular veio ajudar lady Alice a despir-se, e esta pediu a
sua acompanhante:
- No v ainda. Fique comigo e fale-me sobre sua casa. Gina a atendeu, e
falou sobre o solar, no campo, onde havia
sido to feliz. Lady Alice ouviu-a, interessada, e quando foi para a
cama, a criada, que acabara de pegar o vestido cor-de-rosa, recomendou-
lhe:
- No se esquea do remdio, milady, seno a sra. Denver ficar zangada.
Est a ao seu lado.
Lady Alice deu uma olhada para o copo de vinho cheio de um lquido
escuro, ao lado do candelabro, sobre o criado-mudo. Mal a criada saiu,
Gina perguntou:
- Que remdio  esse?
-  um lquido de gosto horrvel que a sra. Denver me faz tomar dizendo
que o mdico me receitou.
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- Papai costumava dizer que os remdios dos mdicos fazem em geral mais
mal do que bem. Mame confiava nas ervas medicinais.
- Tenho certeza de que essa coisa horrvel no est me fazendo bem... Mas
a sra. Denver insiste em continuar com o medicamento.
Olhando novamente para o copo, Gina teve uma ideia.
- Posso ver esse remdio?
- Sim... Se provar um pouco, vai ver que gosto horrvel ele tem. Imagine
que eu sou obrigada a tomar isso duas vezes ao dia...
Indo at o criado-mudo, Gina pegou o copo. O lquido bem escuro lembrava
o remdio que a sra. Dawson, sua preceptora, havia tomado quando fora
acometida de terrvel dor de dente. Em seu desespero, havia dito  sra.
Borne:
- No estou suportando esta dor, e, embora condene o uso do ludano, vou
tomar um pouco desse remdio esta noite.
- Acha que necessita mesmo de ludano? - a sra. Borne inquirira. -  uma
droga horrvel, e no dia seguinte deixa a pessoa pssima. Tive de me
valer desse medicamento quandosofri uma queda do cavalo, durante uma
caada.
- Tambm acho que s vezes a cura  pior do que a doena
- respondera a srta. Dawson. - Mas realmente a dor nesse nervo est
insuportvel.
Gina lembrou-se de que ela prpria havia ido  copa buscar um copo para a
preceptora, e esta despejara nele um pouco de ludano do frasco escuro
que se achava sobre o lavatrio, tomando-o misturado a um pouco de gua.
Todo esse episdio passou vividamente pela mente de Gina, fazendo-a ter
certeza de que a sra. Denver ministrava ludano a lady Alice. Ocorreu-lhe
que chegava a ser absurdo um mdico ter receitado um medicamento to
forte a lady Alice, duas vezes ao dia.
Olhando para a porta, ela constatou que estava fechada e sugeriu em voz
baixa:
- Por que no tenta ficar sem o medicamento? Como voc mesma disse, ele
parece lhe fazer mais mal do que bem!
- Mas se eu no o tomar a sra. Denver far um estardalhao...
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Vai dizer a Druro, quando ele vier me ver, que eu no me cuido... e
que fao questo de continuar doente.
Depois de pensar por um instante, Gina aconselhou, numa voz ainda mais
baixa:
- A sra. Denver no precisa saber de nada.
Tendo nos olhos um brilho de alegria, lady Alice fitou Gina, que, levando
o copo com o medicamento, foi at a janela, afastou as cortinas e
despejou o lquido fora.
Lady Alice deu uma pequena risada e disse a Gina, que j se achava ao seu
lado novamente:
- Nunca havia pensado nisso!
-  Vamos ver como se sentir pela manh. Mas,  claro, no conte a
ningum, especialmente  sra. Denver, o que fizemos.
- No... Naturalmente, ningum pode saber. Mas estou mesmo muito cansada.
- Ento durma, e pela manh lembre-se de no tomar o remdio novamente.
- Por favor... Venha me ver assim que eu acordar.
Gina percebeu que lady Alice se encolheria de pavor se tivesse ela
prpria de jogar o medicamento fora.
- Prometo que virei. Durma bem!
Apagando as velas, Gina saiu do quarto de lady Alice. Caminhando pelo
largo corredor, viu a nanny esperando-a  porta de um dos quartos mais
importantes, no muito distante do ocupado por lady Alice.
- O que aconteceu? Quer falar comigo? - perguntou Gina ao chegar perto da
ama.
- Seu quarto foi mudado. Tudo o que lhe pertence foi trazido para c.
Ao entrar no quarto, Gina viu que era to grande quanto o de lady Alice
e, embora no fosse to lindo como aquele, era ricamente mobiliado e
muito elegante, com paredes revestidas de painis de carvalho. As
cortinas e a colcha, de um tom carregado de rosa, alegravam o ambiente. A
janela da sacada abria-se para o jardim.
- Mudaram-me para c? - Gina perguntou.
- Para mim foi uma surpresa, mas Rose me disse que a prpria
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sra. Denver deu ordens para voc ser transferida para c.
Que estranho! - Gina observou lembrando-se de que a sra.
Denver se mostrara to hostil.
- Se quer saber qual  a minha opinio, aquela mulher, e devo dizer que
no gostei nada do jeito dela, deve ter-se dado conta de que voc  uma
lady,  bem-nascida e educada, e no o tipo de empregada de outro nvel
que ela esperava.
- Bem, o que quer que ela tenha pensado para fazer esta mudana deixou-me
muito feliz! - Gina comentou, rindo. - Isto aqui  muito confortvel!
A nanny permaneceu calada e, vendo a estranha expresso em seu rosto,
Gina quis saber:
- O que h de errado?
- No quero alarm-la, querida, mas Rose disse que toda a casa  mal-
assombrada, e este quarto em particular  onde aparece com maior
frequncia o fantasma de uma mulher vestida de branco; ouvem-se gemidos
de um prisioneiro e os gritos e o choro de uma criana durante a noite.
Gina no conteve o riso.
- Em toda casa muito antiga se ouve esse tipo de histria. Mame contou-
me certa vez que, quando se achava hospedada com papai na casa de lorde
Lovett, ouviu contarem a histria de um fantasma que aterrorizava todos
aqueles que o ouviam. Mas ela jamais ouviu coisa alguma.
- Bem, eu no gosto de fantasmas, no nego isso!
- Pois eu digo que, se houver mesmo tais coisas, sinto pena dessas almas.
Deve ser muito aborrecido ficar vagando nas casas, quando se poderia
estar no cu ou, quem sabe, renascer e tornarse uma pessoa muito mais
interessante do que j se tenha sido anteriormente!
Preferindo no fazer nenhum comentrio, a nanny limitou-se a ajudar Gina
a despir-se. Ao deitar-se a jovem observou:
- Uma coisa  certa: a comida nesta casa  deliciosa, e os fantasmas no
sero capazes de tir-la de ns!
Puxando as cobertas sobre Gina, a ama lhe recomendou:
- Caso se sinta amedrontada, querida, basta puxar o cordo e a sineta
tocar em meu quarto. Virei imediatamente.
- Seria muita falta de considerao de minha parte perturbla depois de
um dia cheio de afazeres! Se os fantasmas me aborrecerem, saberei lidar
com eles sozinha! - Ela passou os braos ao redor do pescoo de nanny e
encostou o rosto no dela. - Boa noite, minha querida.  maravilhoso t-la
comigo. Nas minhas oraes no me esquecerei de agradecer a Deus por
estarmos aqui e no a caminho da casa de titio.
- Quanto a mim, estou rezando para no sermos descobertas!
- Tem razo. Rezarei por isso tambm. A nanny abriu a porta.
- Boa noite, minha querida. Que os anjos a guardem.
Sozinha no quarto, Gina ficou algum tempo recostada nos travesseiros.
Naquela cama to confortvel e depois da viagem cansativa, certamente
iria dormir em seguida.
Porm, fez suas oraes, pedindo aos pais e a Deus que protegessem 
nanny e a ela. Confiava que seus pais compreenderiam a razo da fuga de
ambas, e que especialmente o pai teria agido da mesma forma que ela.
"Olhem por mim, papai e mame, e, por favor, permitam que eu fique nesta
casa por muito, muito tempo. E ajudem-me a tornar lady Alice uma pessoa
saudvel novamente. "
Quase antes de dizer a ltima palavra, adormeceu.
com a sensao de estar passando por uma nuvem seguida de outra, Gina foi
aos poucos recobrando a conscincia, at ficar completamente acordada.
Abriu os olhos. O quarto estava escuro. Pensava no que poderia t-la
acordado quando se deu conta de um barulho estranho, que a fez supor
haver ratos ali. A ideia desses animaizinhos detestveis f-la encolher-
se, instintivamente.
Logo ficou bem claro que aquele som no era feito por ratos. Como agora
ele se tornara mais distinto, constatou que ouvia um rudo metlico, como
se os elos de uma corrente batessem uns nos outros e se arrastassem pelo
cho.
Esse rudo durou algum tempo. Ento fez-se silncio por alguns segundos,
e o que Gina ouviu foi o inequvoco gemido de algum que sofria muita
dor.
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Ainda sonolenta, Gina no pde a princpio compreender o que se passava,
porm logo percebeu que se tratava de rudos comumente atribudos a
fantasmas.
Teria havido prisioneiros naquela casa no passado? Em caso afirmativo,
ser que eles teriam correntes amarradas aos ps? Ser que os gemidos
eram causados por seus sofrimentos e dores?
De repente, do silncio que se fizera por algum tempo, um grito agudo de
mulher vibrou no ar.
Num impulso, Gina sentou-se na cama, porm o silncio voltou a reinar, e
ela s ouviu o barulho da prpria respirao, mais acelerada pelo susto.
Saindo da cama, caminhou tateando pelo quarto, porque no queria acender
a vela. Chegando a uma das janelas, afastou as cortinas e olhou para o
cu todo estrelado e a lua crescente.
Abaixo dela viu o gramado, mais alm o jardim e depois os pinheiros. Tudo
estava quieto; nada se movia.
Diante da beleza da noite, Gina sentiu que seu corao a elevava at o
cu, fazendo desaparecer todos os seus temores. Chegou at a pensar que
estivera sonhando e que os sons ouvidos no haviam sido reais.
Em todo caso, se tivesse ouvido fantasmas, que mal lhe poderiam eles
fazer? Afinal, fantasmas no agiam fisicamente.
Durante algum tempo, Gina ficou  janela.
Quando decidiu voltar para a cama, deixou as cortinas abertas para poder
ver as estrelas e ter o quarto fracamente iluminado. At no espelho do
toucador podia ver algumas estrelas refletidas.
"No estou mais com medo! Nada me assusta!", disse a si mesma.
No aconchego dos lenis, ficou imaginando se haveria alguma razo para
mudarem-na para aquele quarto em particular. Afinal, a ordem viera da
sra. Denver, que se mostrara hostil assim que a conhecera.
Tambm era a sra. Denver quem vinha ministrando a lady Alice um
medicamento que tinha a aparncia do ludano.
"Sem dvida, h coisas muito estranhas nesta casa", pensou Gina. "Ao
mesmo tempo, devo ser extremamente cautelosa. Se o conde
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confia tanto na sra. Denver como ela disse, no lhe ser difcil
convenc-lo a me despedir. "
Tal pensamento a fez lembrar-se da vida que teria de suportar em The
Towers, com os tios.
Fechando os olhos, Gina disse a si mesma que todos os fantasmas que
pudessem existir em Ingle Priory eram preferveis ao tipo de vida que
levaria com tio Edmund, "o nobre pregador".
Pela manh, Rose veio acordar Gina e surpreendeu-se ao ver as cortinas
abertas.
- A claridade no a despertou, senhorita?
- S acordei quando a ouvi entrar no quarto.
- Alguma coisa a perturbou durante a noite?
Sabendo que a pergunta era bem capciosa, Gina respondeu:
- Por que me faz essa pergunta?
- Ora, apenas imaginei que tivesse acontecido algo estranho. Muitas
pessoas que j dormiram aqui comentaram que ouviram barulhos estranhos.
- Que tipo de pessoas?
Rose hesitou, porm no resistiu e contou a histria:
- Bem, a ltima lady que dormiu aqui era amiga de Sua Senhoria, o conde.
Era uma mulher de rara beleza! Como j era viva, todos os empregados
comentaram que talvez ele pretendesse casar com ela.
A ateno de Gina incentivou Rose a prosseguir sua narrativa:
- Certa noite, depois de ter ficado em Ingle dois dias, ficamos sabendo
pelo criado da noite que, l pelas quatro da manh, a linda lady deixou
este quarto e foi correndo para a sute de nosso amo, no fim do corredor,
gritando: "Salve-me! Salve-me! "
- O que teria acontecido?
- Na manh seguinte ela mesma contou a todos que vira um fantasma! Fez
questo de que toda a sua bagagem fosse arrumada imediatamente e quis
partir em seguida. Sua Senhoria levou-a de volta para Londres.
- Foi esse o fim da histria?
- Bem, ela nunca mais voltou aqui. Houve outras ladies, todas lindas.
Ento lady Alice chegou.
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- E ela nunca viu um fantasma?
- Se viu, nunca falou sobre isso. Mas ela no dorme neste
quarto!
- Este quarto  o mais tristemente clebre devido aos fantasmas, em toda
esta enorme casa?
- Os criados garantem que tm visto monges andando pelo hall, mas
acredito que eles dizem isso para caoar da gente! - Rose replicou.
Enquanto ouvia a narrativa, Gina foi fixando mentalmente todos os
detalhes, mas decidiu no dizer uma palavra sobre o assunto nem mesmo
para a nanny, enquanto no descobrisse mais coisas sobre os supostos
fantasmas.
Vestindo-se depressa, foi para o quarto de lady Alice, sabendo que ela
costumava ser acordada mais tarde.
Entrando no quarto silenciosamente para no acordar lady Alice, caso ela
ainda dormisse, viu a sra. Denver recolher o copo vazio ao lado da cama e
colocar em seu lugar outro copo contendo o mesmo lquido escuro.
- O que deseja, srta. Borne? - ela perguntou ao ver Gina.
- Sua Senhoria pediu-me que viesse v-la assim que ela acordasse - Gina
respondeu em voz baixa.
- J estou acordada - lady Alice respondeu.
A sra. Denver voltou-se para ela.
- . Seu desjejum ser trazido em seguida, milady. Agora tome seu remdio.
Sabe que o mdico no quer que se descuide.
Mal acabou de fazer a recomendao, a sra. Denver saiu do aposento.
Percebendo que no seria ouvida, Gina perguntou em voz baixa:
- Como se sente?
- Ainda muito cansada, mas talvez menos sonolenta do que de costume.
com esforo ela sentou-se na cama, bem devagar. Gina pegou o copo com o
remdio e jogou o lquido pela janela, tendo o cuidado de deix-lo cair
no canteiro e no perto da casa.
Quando acabava de colocar o copo vazio no criado-mudo, uma criada entrou
com a bandeja do desjejum. Ao ver o que era servido a lady Alice,
estranhou.
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Ali no havia pratos cozidos; apenas torradas, algumas bolinhas de
manteiga e um vidro de gelia.
-  s isso o que lhe trazem para comer?
- Voc sabe que no tenho fome...
- Mas a partir de hoje as coisas vo ser diferentes - Gina contraps.
Ao servir o ch para lady Alice, notou que era muito fraco, pouco mais do
que gua quente. Seu primeiro impulso foi pedir que servissem algo como
ovos mexidos e caf, que eliminaria o efeito do ludano. Porm, se
fizesse qualquer coisa em favor de lady Alice, levantaria as suspeitas da
sra. Denver, e esta acabaria descobrindo que o medicamento que ela
preparava no estava sendo tomado.
Olhando para lady Alice, teve uma ideia.
- Espere um pouco. Volto logo.
Gina correu pelo corredor e, ao chegar ao seu quarto, ainda encontrou
Rose l.
- Lady Alice quer que eu tome o desjejum em sua companhia
- comunicou  criada. - Sei que j est tudo preparado para mim na
pequena sala de jantar. Voc poderia descer, preparar uma bandeja e lev-
la para o quarto de Sua Senhoria?
- Sim, naturalmente, senhorita! - Rose respondeu com alegria. - O que
gostaria de comer?
- Estou com muita fome; aceitaria ovos mexidos, e um pouco de caf, em
vez do ch.
- Vou j buscar a bandeja para a senhorita.
Voltando depressa para o quarto de lady Alice, Gina contou o que havia
feito, e a moa riu.
- At parece que somos personagens de uma pea ou duas conspiradoras de
um romance.
- No parecemos; somos exatamente conspiradoras, e vamos descobrir por
que voc est sendo envenenada por um vilo terrvel que, afinal, ser
apresentado  Justia! No tenha dvidas!
Gina falou baixinho, e lady Alice olhou para ela com uma expresso
indagativa.
- Acha mesmo, com toda a honestidade, que eu esteja sendo envenenada?
-  o que teremos de provar.
52
Lady Alice ficou por um momento reclinada nos travesseiros.
- sinto-me bem melhor. Realmente, melhorei! Esta manh pareo mais
disposta. Porm minha garganta est muito seca, e minha cabea parece
estar cheia de algodo.
- Vou buscar um pouco de gua. E no estou gostando do aspecto desse seu
ch!
- No est achando que ele tambm esteja envenenado, est? Oh, meu Deus,
por que eu estaria sendo envenenada? Quem estaria interessado em livrar-
se de mim? Tenho certeza de que nunca tive nada; o nico problema de
sade que tive foi uma febre, quando ainda estava na Turquia com papai.
- Nesse caso, depois de tanto tempo, voc devia estar recuperada. Tente
lembrar se antes de vir para Ingle Priory voc sentia esse cansao.
Acredito que esse sintoma s tenha aparecido depois de voc estar aqui.
-  to difcil me lembrar das coisas que aconteceram... Mas tenho
certeza de que sua suposio deve estar certa - lady Alice concluiu
depois de ter ficado algum tempo pensativa.
- Ento continuaremos conspirando at voc recuperar a sade que tinha no
tempo de seu pai. No entanto, teremos de ser muito, muito cautelosas, e
no deixar ningum saber o que estamos fazendo.
Rose entrou no quarto com a bandeja do desjejum de Gina a colocou sobre a
mesinha ao lado da poltrona.
Depois de agradecer, Gina esperou a criada sair e serviu uma xcara de
caf a lady Alice, lembrando-se de que a srta. Dawson, sua ex-preceptora,
havia feito a mesma coisa para abrandar o efeito do ludano que tomara a
fim de aliviar a dor de dente.
Foi com muita insistncia que Gina conseguiu que lady Alice comesse uma
boa poro de ovos mexidos e outras coisas. Ela acabou fazendo uma
refeio trs vezes maior do que a da noite anterior, ao jantar, e ainda
terminou tomando outra xcara de caf.
Quanto a Gina, comeu tudo o que havia sobrado. As criadas vieram recolher
as bandejas e viram, surpresas, que o desjejum de de lady Alice mal havia
sido tocado, ao passo que os pratos servidos  srta. Borne estavam limpos
e o bule de caf, vazio.
Novamente sozinhas, Gina pediu a lady Alice:
- Agora faa um grande esforo e tente levantar-se.  muito importante
respirar ar puro. Tenho certeza de que a privaram disso.
- Eu vivia cansada demais para sair de casa.
- Sugiro um passeio de carruagem. Irei at as cocheiras ver h algum
veculo que eu mesma possa conduzir. Ento faremos um passeio e poderemos
conversar  vontade - Gina sorriu para lady Alice. - Enquanto saio,
levante-se bem devagar, como costuma fazer, e finja que est bem
sonolenta. No se esquea de que, para todos os efeitos, voc tomou
aquele remdio horrvel, que , na verdade, um veneno!
A jovem lady sorriu.
- Ento v depressa, e no se demore. Estou fazendo minhas conjecturas
sobre quem poderia ser o vilo.
- Descobriremos isso mais cedo ou mais tarde. Enquanto esperamos, voc
ter de se preocupar somente com sua beleza, para estar preparada para
seu prncipe encantado.
Para sua surpresa, Gina viu desaparecer o sorriso do rosto de lady Alice.
- Se voc se refere ao meu tutor, saiba que no quero me casar com ele!
- Casar com ele?
- Papai me disse h muito tempo que desejava que eu me casasse com o
conde, para tornar-me uma condessa, mas ele me assusta!
Tal ideia jamais passara pela cabea de Gina, no s porque lady Alice
era muito jovem, mas tambm por estar to doente. Ento pde compreender
os cuidados do conde e a razo de ele mostrarse to insistente para que
ela ajudasse sua pupila e talvez futura esposa.
Em voz alta, observou:
- No importa se voc vai ou no se casar com ele, mas o fato  que o
conde certamente se parece com um prncipe, e esta casa pode facilmente
ser vista como seu castelo.
- Eu vivia muito feliz com papai, quer estivssemos numa tenda ou numa
pequena cabana de madeira.
54
Notando que o rosto da enferma ainda se mostrava sombrio,
Gina apressou-se em anim-la.
- No fique aborrecida se o conde no  o prncipe encantado que voc
espera. Sendo to linda, voc ter dezenas deles pedindo
sua mo em casamento assim que estiver bem de sade para ouvir
suas propostas.
- At comeo a acreditar que fao parte de uma histria de fadas e que
voc  a minha fada madrinha!
As duas riram, e Gina tocou a sineta chamando a criada particular de lady
Alice.
- Vou at as cocheiras. Assim que voc estiver vestida, faremos nosso
passeio de carruagem, a no ser, claro, que todos os cavalos se tenham
transformado em ratos e as carruagens em abboras.
Alice riu novamente. Gina seguiu correndo pelo corredor e desceu a
escada. No hall, deixou os criados surpresos ao perguntar como poderia
chegar s cocheiras.
S quando seguia na direo indicada por um dos criados Gina se deu conta
de que os rapazes tinham razo de se mostrarem surpresos, primeiro porque
ela no estava usando chapu e, em segundo lugar, porque ela mesma quis
ir providenciar a carruagem, em vez de mandar um criado fazer isso.
Realmente, agira como se ainda estivesse em sua prpria casa.
"Eles tero de se acostumar com meu modo de ser", pensou, porm logo se
lembrou de que, estando o conde em Ingle Priory, ela devia ser mais
recatada.
Ao chegar s cocheiras, deu-se conta de que a histria de ela ter
conseguido acalmar o cavalo de sir Charles Carstairs, no dia anterior, j
havia chegado at ali. A prova disso estava na atitude e nas palavras do
chefe dos cavalarios.
- Fiquei sabendo que a senhorita tem experincia com cavalos ele disse.
- Papai era um cavaleiro notvel, e comecei a montar quando ainda era uma
criana de colo.
O chefe dos cavalarios riu e mostrou  visitante, com orgulho, alguns
dos cavalos bem cuidados do conde. Diante de animais to
55
extraordinrios, Gina sentiu-se frustrada por no poder perguntar se
poderia montar um deles imediatamente.
Naturalmente, compreendia que em primeiro lugar era com la Alice que
devia se preocupar.
Ao informar ao chefe dos cavalarios o que desejava, ele a acompanhou
at um enorme anexo onde havia carruagens dos mais diversos tipos, alm
de troles, carroas e faetontes.
Ao ver uma pequena sege para duas pessoas que podia ser puxada por
apenas um pnei ou um cavalo pequeno, Gina achou que ali estava
exatamente o que queria. Ento pediu que ela fosse l vada  frente da
casa.
- Suponho que a senhorita deseje montar um dos magnfico cavalos de Sua
Senhoria - disse o chefe dos cavalarios.
-  o que mais desejo - ela respondeu com franqueza. - Sua Senhoria deu-
me permisso para cavalgar, desde que eu convena lady Alice a me
acompanhar.
A expresso do rosto do homem demonstrou que ele compreen dia a situao.
- Bem, boa sorte, senhorita. Um passeio nessa sege j  um passo para
lady Alice comear a sair um pouco.
Gina voltou depressa para o quarto de lady Alice, encontrando a vestida e
com um xale de seda que a criada prudentemente lhe dera para agasalhar-
se.
- Que bom v-la pronta! Vamos fazer j nosso passeio! - Gi na exclamou.
Vendo que lady Alice usava chapu, foi depressa para seu quar to. A nanny
j tinha  mo um chapu, que ela colocou na cabea sem ao menos olhar-se
ao espelho, amarrando as fitas sob o queixo.
- Temos de ajudar Sua Senhoria a descer as escadas, nanny.
- Gina observou. - No ser prudente deix-la cansar-se demais.
Quando lady Alice foi quase carregada pelas escadas, Gina ficou sem saber
se ela representava ou se realmente se sentia to inerte.
As trs chegaram ao hall e viram a sra. Denver caminhando apressada pelo
corredor.
- O que, cus, est acontecendo? - ela perguntou. - Por que vai sair,
milady? Sabe que devia ficar repousando!
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Seu modo de dirigir-se  enferma era muito agressivo, e Gina mesma deu a
explicao:
- Tenho certeza de que far bem a Sua Senhoria tomar um pouco de ar
fresco. Est um lindo dia, faz calor e no iremos muito
longe.
- Ora, por que est dando ordens sem me consultar, srta. Borne? - a sra.
Denver interpelou-a.
- Estou apenas seguindo as instrues de Sua Senhoria, o conde. Tenho
certeza de que ele ficar feliz quando souber que sua pupila fez tanto
esforo para poder realizar este passeio.
Embora fosse evidente a fria no rosto da sra. Denver, ela nada pde
fazer, achando-se na presena de Newman e dos criados. Mantendo uma
expresso carrancuda, a governanta ficou parada, observando lady Alice
descer os degraus da frente e subir a custo na sege.
Gina cobriu-lhe os joelhos com uma manta e tomou as rdeas, pensando que
no lhe havia passado pela cabea que iria conduzir um veculo durante
sua estada em Ingle Priory.
Afastando-se, ela no olhou para trs, porm podia sentir os olhos da
sra. Denver fixos nela, como se quisessem perfurar-lhe as costas, furiosa
por no ter conseguido fazer sua autoridade prevalecer.
Assim que a sege se distanciou da casa, Gina murmurou, para no ser
ouvida pelo cavalario que se achava no banquinho traseiro:
- Escapamos!
- Espero que ela no fique zangada demais! - lady Alice comentou. - Essa
mulher me assusta!
- No quero v-la amedrontada. Apenas acomode-se confortavelmente,
respire fundo e aprecie este sol maravilhoso.
As duas iam deixando o caminho de acesso a Ingle Priory quando viram um
faetonte se aproximar. Gina reconheceu o veculo e Puxou as rdeas do
cavalo, enquanto sir Charles, que conduzia o faetonte, fazia o mesmo.
Naquela manh, sir Charles Carstairs vinha acompanhado de um cavalario,
a quem entregou as rdeas. Saltando do faetonte, ele se aproximou da
sege.
- Ia fazer-lhe uma visita, srta. Borne, e agradecer-lhe pelo fez ontem
por mim - ele disse tirando o chapu.
- Vejo que seu faetonte no sofreu com a experincia - Gina observou
sorrindo.
Virando-se para lady Alice, continuou:
- Permita-me apresentar-lhe sir Charles Carstairs, que conheci ontem,
conforme j lhe contei.
- Encantado em conhec-la. J me haviam dito que uma jovem de beleza
indescritvel se encontrava em Ingle Priory, mas no consegui obter do
conde o convite para vir v-lo na ltima vez em que se achava aqui.
- Ele tambm no se encontra em Ingle no momento - respondeu lady Alice.
- A srta. Borne insistiu para que eu sasse e desse um passeio.
- Nesse caso, como eu poderia visitar uma casa vazia, j que vocs esto
aqui?
- Talvez possa voltar outro dia - sugeriu gentilmente lady Alice.
Gina teve certeza de que lady Alice estava feliz em conversar com sir
Charles, e props:
- Certamente seria delicado perguntar a sir Charles se aceitaria almoar
conosco.
-  um convite que aceitarei com entusiasmo! - sir Charles apressou-se a
responder.
- Acho timo! - lady Alice disse timidamente. Gina segurou as rdeas mais
firmemente antes de observar:
- No faremos um longo passeio. Talvez o senhor pudesse ir informar
Newman, o mordomo, que almoar conosco. Enquanto nos espera, Newman
providenciar os jornais matutinos para que o senhor se distraia.
- Por favor, no se demorem - sir Charles pediu. Gina tocou o animal, com
a impresso de que sir Charles no
tirara os olhos de lady Alice.
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CAPTULO IV

Elas entraram na linda vila, com suas casinhas de telhados revestidos de
palha, enfeitadas por jardins vivamente coloridos pelas flores da
primavera.
A igreja de pedras cinzentas fez Gina se sentir como se voltasse aos
tempos dos normandos. O asilo, com seus muros cobertos de trepadeiras,
tinha um aspecto muito agradvel.
O passeio estava sendo confortvel e tranquilo para lady Alice, uma vez
que o cavalo que puxava a sege era, alm de j meio velho e pacato, bem
treinado para ser atrelado quele tipo de veculo.
Gina no tinha nenhuma dificuldade para lidar com o animal, e, no fosse
pelo estado da jovem lady, teria preferido um passeio mais excitante.
Ao fim da vila, quando j ia voltar para casa, Gina viu uma casinha muito
atraente, isolada e um pouco maior do que as demais. No jardim podiam-se
ver inmeras colmeias. Subitamente, a jovem teve uma ideia e fez o cavalo
parar em frente ao portozinho.
- Por que paramos aqui? - lady Alice perguntou.
- V aquelas colmeias? Creio que elas podem ajud-la.
- Abelhas podem me ajudar?
Um velho ia saindo da casa e, ao ver a sege parada, seguiu pelo caminho
de pedras entre os canteiros, indo atender s duas moas.
- bom dia. Posso servi-las em alguma coisa?
- Vi as colmeias e imaginei que talvez o senhor pudesse me vender um favo
de mel.
O velho sorriu.
- Tenho, na verdade, o melhor mel da redondeza!
- No duvido disso, e lhe ficaria muito agradecida se nos arranjasse
agora um pouco desse mel.
- Ora, fao questo de ir buscar um pouco do mel para vocs provarem. Vo
ver como  excelente.
- Gostaramos muito - Gina sorriu-lhe.
O velho se afastou, e, vendo a curiosidade de lady Alice, Gina explicou-
lhe:
- Assim que vi as colmeias, lembrei-me de que muito tempo atrs papai me
disse que toda vez que ele tomava vinho em excesso e se sentia mal na
manh seguinte, comia um favo de mel e aquela horrvel sensao de ter
"uma cabea de nabo", como ele costumava dizer, desaparecia.
Interessada, lady Alice ouvia, atenta.
- Portanto, se voc conseguir comer mel de favo, este ir eliminando de
seu organismo o veneno que j se impregnou nele.
Subitamente, lady Alice riu.
- Tudo o que voc faz  to incomum, to extraordinrio, que s vezes
imagino estar sonhando!
O velho j voltava, trazendo um prato onde havia cinco amostras de mel.
- Agora, queiram provar um pouco de cada tipo de mel, e digam-me de qual
gostam mais.
Havia mel mais claro e bem mais escuro, que havia sido colhido no outono.
Depois de provar trs das amostras, Gina exclamou:
- So todos deliciosos!
- Concordo com voc - disse lady Alice, que havia provado dois tipos. -
Por que no levamos um favo de cada um?
-  uma excelente ideia! - Gina aprovou. - Seria possvel levarmos agora
cinco favos para Ingle Priory?  tarde mandaremos um dos cavalarios vir
pagar-lhe o que devemos.
O velho mostrou-se muito satisfeito.
- Vou buscar o que vocs desejam. Fico honrado em saber que gostaram do
mel.
Ele se afastou, deixando Gina com o prato na mo.
- Coma o mais que puder - ela recomendou a lady Alice.
- Estou tentando, mas  to grosso e grudento!
Afinal, ela conseguiu comer bastante, e Gina deliciou-se com o
An
que sobrou. Ao voltar, o velho constatou, feliz, que o prato ficara
vazio.
Ele mesmo colocou os vidros no fundo da sege, e a seguir despediu-se.
Gina tocou o cavalo e fez calmamente a viagem de volta a Ingle Priory. S
quando entrou na casa deu-se conta de que a sra. Denver ficaria furiosa
ao saber que elas haviam comprado alguma coisa por conta prpria.
Ao mesmo tempo, pareceu-lhe absurdo que uma governanta no permitisse que
lady Alice no tivesse nenhuma autoridade, embora fosse a pupila do
conde, destinada a tornar-se sua esposa e, consequentemente, vir a ser a
dona de tudo.
Os criados do hall ajudaram lady Alice a descer da sege e a subir os
degraus. Gina ia segui-la quando viu o cavalario que viera buscar o
veculo; ento parou e pediu-lhe:
- Queira dizer ao chefe que lady Alice adorou o passeio.
- Est bem, srta. Borne. Direi ao sr. Burton - respondeu o rapaz.
Chegando ao hall, Gina viu lady Alice entrando no salo azul, e foi falar
com Newman.
- Sua Senhoria comprou alguns vidros de mel do velho que mora na casinha
ao fim da vila.
O mordomo assentiu com a cabea, indicando que sabia a quem ela se
referia.
- Os vidros esto na sege. Poderia encarregar-se de no deixar faltar uma
poro de mel a Sua Senhoria,  hora do ch e no desjejum?
- Certamente, senhorita.
- Infelizmente nenhuma de ns tinha dinheiro - acrescentou Gina com um
sorriso. - Prometi ao dono do apirio que mandaria algum ir pagar-lhe
esta tarde.
- Cuidarei disso, srta. Borne.
- Obrigada.
Afastando-se, ela foi encontrar-se com lady Alice. Ao alto da escada, viu
a sra. Denver. Esta havia esperado o retorno das duas, e obviamente
ouvira Gina falar sobre o mel.
A expresso de raiva no rosto da mulher era to clara que Gina
61
sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha. Ento apressou o passo. Era
absurdo temer a sra. Denver. Ela no passava de uma empregada e no tinha
o direito de querer dominar lady Alice.
Muito pior, se  que suas suspeitas tinham fundamento, era o fato de a
governanta estar aos poucos envenenando lady Alice com ludano. Na noite
anterior a sra. Denver devia ter medido a dose cuidadosamente. Era
natural que no quisesse exagerar, pois deixaria a enferma inconsciente.
Ludano era ministrado a pacientes que se submeteriam a operaes. A
governanta sem dvida era bastante esperta, e fazia lady Alice ingerir
pela manh apenas o suficiente para sentir-se fatigada, porm  noite
aumentava a dose, para faz-la ter um sono muito pesado.
"Mas por qu?", Gina perguntou-se. "Por que a sra. Denver desejaria
destruir uma pessoa calma, delicada e despretensiosa como lady Alice,
incapaz de magoar algum? "
Era difcil encontrar a resposta.
com uma sensao de alvio, ela lembrou-se de que sir Charles almoaria
em Ingle Priory. Pelo menos pensaria em outra coisa que no fosse o
problema da letargia da pupila do conde.
Sir Charles demonstrou sua grande alegria ao v-las de volta. Ele
estivera lendo os jornais, porm deixou-os de lado e comentou:
- Li que Druro obteve outra vitria. Ontem seu cavalo venceu novamente.
Porm, como era um dos favoritos, acredito que ningum tenha feito uma
fortuna apostando nele.
- Seus cavalos so magnficos! - Gina exclamou.
- Imagino que voc ficar feliz ao mont-los.
- Espero ansiosa por essa ocasio. Lady Alice prometeu-me fazer tudo para
ficar boa depressa, assim poderemos cavalgar juntas.
- Voc est doente? - sir Charles, perguntou, surpreso, voltando-se para
lady Alice. - Fiquei sabendo apenas que havia perdido o pai. Confesso que
estava esperando um convite do conde para vir conhec-la.
- Agora j estou um pouco melhor.
Gina ficou feliz ao ouvir a resposta de lady Alice. Durante o almoo, a
jovem lady mostrou-se mais disposta. Fez um grande esforo
62
e comeu uma poro razovel do que lhe foi servido, em vez de
apenas mexer na comida.
Provavelmente, devido  doura do mel, ela sentiu sede e tomou bastante
gua, alm de um copo de vinho branco.
- Gostaria que vocs fossem conhecer minha casa - convidou sir Charles,
terminado o almoo. - Naturalmente, no  to magnificente quanto Ingle
Priory, mas que casa o ? Entretanto,  um exemplo encantador da
arquitetura do perodo da rainha Ana.
- Eu adoraria conhec-la! - exclamou Gina, entusiasmada.
- Eu tambm! - lady Alice concordou.
- Terei prazer em retribuir a hospitalidade de vocs. Poderei receb-las
amanh ou depois de amanh, como for mais conveniente para ambas.
Gina olhou para lady Alice e percebeu que ela se mostrava ansiosa para
aceitar o convite de sir Charles.
- Creio que me sentirei bem amanh. Os trs voltaram para o salo azul
depois do almoo. Foi com pesar que o visitante anunciou que devia voltar
para casa. Era evidente que se encantara com lady Alice.
Ele estivera falando sobre sua famlia com ela. Ao observ-la ouvindo seu
interlocutor, Gina achou-a linda, e teve certeza de que, assim que se
sentisse bem para ser apresentada  sociedade, como o conde pretendia,
sem dvida iria tornar-se o maiorr sucesso, devido a sua beleza incomum.
Finalmente sir Charles subiu ao faetonte. Antes de partir, disse a Gina,
que o acompanhara at a porta:
- Comprei uma parelha de cavalos no Tattersall's, e gostaria de levar
voc e lady Alice para um passeio em meu faetonte.
- Adoraremos passear!
- Lady Alice  to linda! - comentou sir Charles, baixando a voz para
que os criados no o ouvissem. - Estou ansioso paraH niostrar-lhe minha
casa.
- Prometo-lhe que logo ela ter condies de fazer muitas coisas
que a doena a tem impedido de realizar.
63
Sir Charles sorriu.
- O propsito de minha visita era apenas agradecer-lhe o que
fez por mim ontem, mas at me esqueci disso, uma vez que o convite para o
almoo me deixou imensamente feliz.
- Agora  tarde! - Gina riu. - Mas vou considerar seus agradecimentos
como feitos.
O faetonte afastou-se e Gina entrou no hall, indo diretamente para o
salo azul. Ao ver lady Alice, foi-lhe dizendo, cheia de entusiasmo:
- J fez uma conquista! Sir Charles esteve dizendo coisas lindas a seu
respeito!
-  mesmo? - lady Alice perguntou ansiosa. - Tambm o achei uma boa
pessoa.
- Boa pessoa? Ele  encantador! Sem dvida ser muito divertido irmos
almoar com ele.
Lady Alice sorriu, radiante, demonstrando que tambm no via a hora de
voltar a ver sir Charles.
- Bem, agora deve estender-se no sof e repousar. No  aconselhvel
fazer tantos excessos num s dia - recomendou Gina, receando cans-la
demais.
- Sinto-me muito melhor! Nem posso acreditar! Mas acho que tem razo. Vou
descansar. Pelo menos no h nada melhor para eu fazer...
- Est sendo muito sensata, lady Alice...
- Oh, me chame de Alice - ela pediu - No quero estar dizendo "srta.
Borne" a todo minuto!
- Muito bem, Alice. Mas o que eu ia dizer era que enquanto voc
descansava eu poderia ir  biblioteca, caso no se importe.
- Claro que no me importo. Mas, quando voltar, se eu estiver dormindo,
no v embora. Fique comigo.
- J sei que est querendo que um outro prncipe encantado venha bater
novamente a sua porta - disse Gina, provocando-a.
- Saiba que no deve ser muito gananciosa!
As duas riram.
Gina cobriu as pernas da enferma com o xale que se achava sobre o brao
do sof, colocou algumas almofadas a suas costas para deix-la
confortvel e, quando ia sair, Alice segurou-lhe a mo.
64
- Voc  muito bondosa. Estou muito contente em t-la comigo.
- Tambm estou contente por fazer-lhe companhia.
Ao sair, Gina fechou a porta sem barulho e seguiu pelo corredor, certa de
que por ali chegaria  biblioteca.
A primeira porta que abriu havia sido no passado a primeira sala 
entrada do mosteiro, e funcionava agora como salo de jantar. A grande
lareira medieval ainda estava ali, como tambm a longa mesa do refeitrio
dos monges. O teto, com suas pesadas vigas sustentando o forro, tinha a altura de dois andares.
No entanto, os brases coloridos do conde de Ingleton, que se viam nas
vidraas das longas janelas, haviam sido ali inseridos bem depois da
construo do mosteiro.
Tudo naquele salo era digno de admirao. Ao mesmo tempo, aquele
ambiente parecia impregnado de mistrio, de uma santidade que no havia
no salo azul. No era sem razo que os criados diziam ter visto monges andando no hall ao lado.
Depois de algum tempo sentindo a atmosfera daquele cmodo, Gina apressou-se em seguir pelo corredor at encontrar, como esperava, a biblioteca.
Esta tambm era notvel, apesar do teto mais baixo. Centenas de livros em
estantes duplas espalhadas pelo grande cmodo tornavam-no bem diferente
daquele onde Gina estivera h pouco. Nada surpresa, ela viu um senhor
idoso, de cabelos brancos, sentado  escrivaninha, a um canto da biblioteca, escrevendo. Ele se levantou assim que lhe notou a presena.
- Sou Gina Borne - ela apresentou-se. - Sem dvida o senhor  o curador. Sou a acompanhante de lady Alice.
- Soube de sua chegada a esta casa, srta. Borne. Espero que se interesse por livros.
- Sim, interesso-me muito. Gostaria que me indicasse onde encontrar um
que descrevesse esta casa e as pessoas que j viveram aqui.
O curador riu.
- H muitos volumes sobre esse assunto. Pode escolher  vontade.
Ele prprio a conduziu at uma estante, onde ela viu de imediato mais de
uma dezena de volumes sobre Ingle Priory e sobre os condes de Ingleton, escritos em pocas diversas.
65
O curador escolheu dois livros, achando que estes iriam satisfazer a leitora. Gina aproveitou para dar uma olhada em outras estantes, viu alguns outros livros e
achou que era hora de voltar para junto de lady Alice.
- Espero que no me considere importuna, mas devo avis-lo de que leio depressa e virei v-lo com frequncia!
- Ser um prazer, srta. Borne - o curador sorriu.
Gina voltou com os livros na mo e, ao se aproximar do hall, viu a sra. Denver, que vinha em sua direo.
- Imaginei encontr-la aqui, srta. Borne - disse a governanta ao se aproximar. - Desejo ter uma palavrinha com a senhorita.
- Pois no. Eu ia justamente voltar para junto de lady Alice. No desejo deix-la a ss por muito tempo.
- Quero que no se preocupe tanto, srta. Borne. Creio que est assumindo muitas responsabilidades, o que no  necessrio. Lady Alice est sob meus cuidados e no
desejo v-la correr riscos. Esse passeio de sege, por exemplo, pode vir a ser prejudicial a sua sade. Devia ter-me consultado antes de tomar suas decises.
O modo severo como ela falou poderia ter intimidado qualquer outra pessoa, mas no a Gina. Ela estava acostumada a expressar o que sentia, e jamais se deixaria amedrontar
por algum como a sra. Denver. Fitando-a corajosamente, a jovem respondeu:
- Antes de eu deixar Londres, Sua Senhoria deu-me ordens explcitas sobre o que eu devia fazer como acompanhante de sua pupila; s tenho cumprido o desejo do conde.
Sem esperar para ouvir a resposta da sra. Denver, Gina afastou-se, entrando no corredor que conduzia ao salo azul. Mesmo sem se voltar, teve certeza de que a governanta
a seguia com o olhar cheio de fria.
Disse a si mesma que a governanta nada podia fazer para tirar-lhe a autoridade como acompanhante de lady Alice. Ao mesmo tempo, reconhecia que seus cuidados com
a pupila do conde deviam ser redobrados.
Lady Alice tinha os olhos fechados, porm trazia um sorriso nos lbios. Gina pretendia sair de perto dela e ir na ponta dos ps para uma poltrona, quando Alice abriu
os olhos.
- Estou acordada.
- Ento no dormiu?
- Cochilei um pouco. Mas no foi aquele sono horrvel que eu costumava ter quando tomava o remdio.
- Oua - pediu Gina, ajoelhando-se ao lado do sof. - No quero assust-la, mas acho que a sra. Denver  uma mulher m, perversa e perigosa. Por alguma razo que
ainda no descobri qual seja, ela est tentando destruir voc!
- Pois eu sei qual  a razo - Alice respondeu, para espanto
de Gina.
- Sabe?! Ento qual ?
- Ela est apaixonada pelo primo Druro!
Os olhos arregalados de Gina pousaram sobre ela.
- No acredito!  impossvel!
-  verdade! - Alice insistiu. - Papai j me havia dito que Druro exerce um grande fascnio sobre as mulheres. Tambm disse que, se Druro no se casasse com uma
pessoa sensata como eu, iria acabar tendo problemas.
Gina no conseguia acreditar no que Alice dizia. Esta prosseguiu:
- Quando vivamos no exterior, papai recebia frequentemente cartas de amigos, entre as quais sempre havia notcias sobre o ltimo "capricho" do primo Druro. Ele
sempre teve paixo por lindas mulheres, porm essas paixes nunca duraram. Um ms depois chegava uma outra carta, e o nome da mulher j era diferente do da anterior!
- Mas... a sra. Denver!
- Voc pode no acreditar, mas quando Druro vem para c
ela se transforma! Muda at a voz e cuida muito da aparncia! como se fosse outra pessoa. Embora parecesse inacreditvel, a revelao de Alice explicava
a atitude da governanta e sua tentativa de destruir quem se coloCasse em seu caminho. Felizmente, Alice j podia conversar, e contou a Gina vrias coiSas que ela
desejava saber, principalmente sobre o conde.
- Papai admirava Druro, por ele ser to bem-sucedido em tudo o que se dispusesse a fazer, embora achasse graa de sua nsia e sucesso. Creio que papai sentia certa
inveja porque Druro era
67
to rico, e ns no tnhamos nem dinheiro para viajar confortavelmente.
Papai tambm admirava tudo o que o primo Druro posua, e era essa a
razo de ele querer que eu me tornasse sua esposa.
- Seria timo se voc fosse a dona desta casa encantadora Gina observou
suavemente.
- J lhe disse que o primo Druro me assusta. No tente convencer de que
ele pode tornar-se o meu prncipe encantado; no tem o direito de fazer
isso!
Aquele modo de falar, subitamente to determinado, espantou Gina, que se
apressou a dizer:
- Tenho certeza de que ningum a obrigar a casar contra sua vontade.
- Druro  meu tutor!
- Sei disso, mas ele no h de querer uma esposa que no ame,
principalmente havendo, como voc me contou, tantas mulheres que colocam
o corao aos ps dele.
- Voc usou as palavras certas. S espero que tenha razo Gina.
Por um momento, Alice permaneceu em silncio.
- Talvez por eu ter vivido to feliz viajando com papai, e conhecendo
lugares estranhos e nunca tendo sido cercada de luxo no ambiciono viver
em tal esplendor ou tornar-me algum importante.
- Seu pai era um marqus! - Gina lembrou.
- Um marqus muito pobre. Quando viajvamos, ele preferia ser chamado
apenas de "sr. Hanbury".
- Fale-me sobre suas viagens - Gina pediu. Embora deseja se saber mais
coisas sobre o conde, seria mais prudente no deixar Alice aborrecida,
falando sobre o homem com quem no queria se casar.
Aquele havia sido um dia movimentado demais para a enferma e Gina sugeriu
que jantassem nos aposentos de Alice.
- timo - ela concordou. - Assim poderemos conversar, uma  vez que os
criados s entraro para servir um novo prato. Na sala de jantar temos de
medir as palavras e ser cuidadosas o tempo todo. Que aborrecido!
Vou comunicar a Newman a nossa deciso; se a sra. Denver
tentar interferir, no se mostre amedrontada.
- Mas eu tenho medo dela! - Alice admitiu.
Em seguida deu um pequeno grito.
- o que foi? - Gina perguntou.
- Se ela desconfiar que o medicamento que me d no est fazendo efeito,
poder envenenar minha comida!
Nunca havia passado pela cabea de Gina tal possibilidade. Alice fora
brilhante ao lembrar-se disso.
- Nesse caso, eu vou aceitar exatamente o que servirem a voc.
- No vai adiantar. J imaginou que ela poder querer envenen-la tambm?
- Ah, ento ser acusada de tentativa de assassinato! - Gina replicou. -
No seu caso, ela pode enganar o conde e o mdico, mas seria muito bvio
se eu comeasse de repente a me consumir aos poucos at ficar como voc
estava!
- Entendo o que est dizendo, mas ainda tenho medo dessa mulher;
realmente, tenho muito medo!
- Estou aqui para proteg-la - Gina tranquilizou-a mostrandose
determinada.
No entanto, sua preocupao era grande. Talvez devesse contar ao conde o
que se passava. Ao mesmo tempo, receou que ele no lhe desse crdito. E
havia ainda a questo de criar problemas com empregados mal chegara a
Ingle Priory. Afinal, naquela casa tudo era muito bem organizado e andava
com a preciso de um relgio.
Era inegvel que no se podia achar uma falha em nada que estivesse sob a
direo do conde, e o mesmo se podia dizer da sra. Denver.
Era to horrvel o que ela descobrira, e to grave, que o melhor Seria
manter segredo e no contar nada nem mesmo  nanny. Esta Passaria a
demonstrar ainda mais acintosamente a averso que tinha pela governanta,
levantando suspeitas.
A caminho de seu quarto para tomar banho e preparar-se para
O Jantar, Gina ia pensando, com um suspiro, que nada nesta vida corria
serenamente, sem qualquer percalo.
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Gostava de Alice, e era evidente que esta tambm gostava dela. Mas agora,
quando tudo poderia ser perfeito, surgia aquela ameaa na pessoa da sra.
Denver.
"Oh, meu Deus, no permita que ela prejudique Alice ou que me mande
embora. "
A nanny interrompeu-lhe os pensamentos.
- Voc  mesmo muito esperta! Como conseguiu persuadir Sn Senhoria a
fazer um passeio de carruagem? Todos os criados fica ram atnitos ao
saber do fato!
- Ela est um pouco melhor, nanny. Creio que se sente mais animada porque
tem uma pessoa da sua idade com quem conversar.
- Creio que seja esta a explicao! Soube que lady Mary In gle, que
esteve cuidando da jovem enferma antes de ns chegarmos, j era uma
senhora de quase sessenta anos!
- Bem, tenho feito o possvel para distrair lady Alice, e conse gui que
ela risse. Considero isso uma vitria!
- Claro que sim, querida! Sinto orgulho de voc. O sr. Newman e uma das
arrumadeiras me disseram que a sua vinda para esta casa foi uma alegria.
 timo ter uma pessoa to linda e jo vem para cuidar de Sua Senhoria. S
receavam que ela no se eu tusiasmasse, devido a sua letargia.
- Como v, eles se enganaram! E devo dizer que confio em si Charles para
ajudar lady Alice a se recuperar ainda mais depressa.
- Pareceu-me um excelente cavalheiro. Todos o elogiam - replicou a
nanny, continuando a conversar. - Entre os criados  geral o comentrio
sobre a sua coragem em ir cuidar do cavalo dele ontem, por ocasio do
acidente.
Gina sorriu. Despiu-se e entrou na banheira, que Rose j enche r de gua
quente.
Quando a nanny a ajudou a vestir um dos seus vestidos bastante usados,
Gina teve vontade de ter roupas novas e bonitas como  as de lady Alice.
Ento prometeu a si mesma que, assim que recebesse o ordenado da
primeira semana, compraria um tecido boni to, com o qual a nanny poderia
fazer-lhe um vestido. Em todo caso no havia necessidade de se preocupar
com isso, pois s havia lady Alice para v-la.
- Virei mais cedo, nanny - avisou. - Quero ler um pouco antes de dormir.
- Deixarei tudo pronto para voc - prometeu a ama.
Gina foi para o quarto de Alice e, ao chegar, viu a sra. Denver que saa.
Pela expresso no rosto da governanta, era evidente que algo a deixara
feliz.
- Peo-lhe que no deixe Sua Senhoria dormir muito tarde. O mdico voltou
a insistir em que o repouso  essencial para seu restabelecimento. Notei
seu cansao depois da extravagncia de hoje.
-  muita bondade de sua parte mostrar-se to preocupada com lady Alice -
Gina respondeu, fazendo esforo para sua voz no soar cheia de sarcasmo.
Entrando no quarto e fechando a porta, foi para perto da cama, onde Alice
estava deitada, muito linda em sua camisola enfeitada de rendas. Vendo-a
de olhos fechados, sups que talvez a sra. Denver a tivesse forado a
tomar o horrvel remdio.
Mas Alice abriu os olhos e, vendo a preocupao da amiga, riu. Em seguida
sussurrou:
- Est tudo bem! A megera entrou no quarto, esperando que eu estivesse
quase desmaiada, ento fingi que estava mesmo!
Gina sentou-se na beirada da cama.
- Que bom, Alice! Voc foi muito esperta!
- Lembrei-me de que voc me recomendou para no demonstrar que me sentia
melhor.
- Sim, claro. Mas receei que no se lembrasse disso.
- Essa mulher  perigosa - Alice falou baixinho. - Sei que , Gina!
Cheguei a ter medo de que, ao me ver de olhos fechados, ela tentasse me
sufocar com o travesseiro!
Gina deu um pequeno grito.
- No deve dizer isso!
- Tenho experincia. Se eu j no tivesse vivido entre povos de perigosas
tribos no Oriente, onde sempre havia algum cometendo um assassinato, eu
no teria suspeitado de nada.
Gina segurou-lhe a mo.
- Acha que seria conveniente eu vir dormir com voc?
- No. Levantaria suspeitas; a sra. Denver passaria a desconfiar de que
j teramos descoberto seu plano assassino.
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Diante desse argumento, Gina se convenceu mais ainda da inteligncia de
Alice.
- Ento, trate de trancar sua porta a chave, e eu mesma virei acordar
voc antes de sua criada aparecer, pela manh.
- tima ideia. Mas, por favor, fique comigo at a sra. Denver vir trazer
o remdio da noite.
- Pensei que ela tivesse acabado de traz-lo.
- No, ela entrou aqui esperando me ver prostrada depois de ter-me
divertido tanto... E foi como me encontrou!
As duas riram. Ao ouvirem o som dos criados trazendo o jan tar,
emudeceram. Gina levantou-se da cama e foi at a janela.
Como j esperavam, a sra. Denver voltou ao quarto de lady Alice logo aps
o jantar, trazendo o infalvel remdio. Colocando o copo ao lado do
criado-mudo, recomendou:
- No se esquea de tomar isto. Foi receitado pelo mdico, e sabe que 
imprescindvel para seu restabelecimento.
- Tenho certeza de que est me fazendo bem! E na verdade sinto-me um
pouco melhor hoje.
- Era o que eu desejava ouvi-la dizer - replicou a sra. Denver. -  muito
importante continuar com este remdio.
Ela dirigiu um olhar hostil para Gina, antes de dizer:
- Espero que no se demore muito neste aposento conversando com Sua
Senhoria.
- No me demorarei, fique tranquila. Reconheo que ela est muito
cansada.
Era evidente a satisfao da governanta. Assim que ela deixou o quarto,
as duas moas se olharam e ficaram atentas, esperando
o  rudo de seus passos desaparecer no corredor. A criada de Alice veio
 correr as cortinas, embora ainda no fosse muito tarde.
- O que voc vai fazer? - Alice perguntou assim que as duas ficaram
sozinhas novamente.
- Pretendo ler um pouco. Se precisar de mim, basta tocar a sineta
chamando a criada, e ela ir me buscar.
- Seria to bom se voc estivesse ainda mais perto deste quarto! Ocorreu
a Gina que essa era uma boa razo para pedir  sra.
Denver nova mudana de quarto. No havia esquecido os rudos estranhos da
noite anterior, fossem eles provocados por fantasmas
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no. Embora no tivesse ficado realmente amedrontada, no queria ouvi-los
outra vez. "Amanh me mudo daquele quarto", pensou. Ento respondeu a
Alice:
-  uma tima ideia. Se eu ocupar o quarto ao lado deste, poderemos nos
comunicar at batendo na parede.
- Espero que me oua, se eu gritar.
- Cuidarei da mudana amanh - Gina prometeu e, num impulso, deu um beijo
no rosto da amiga. - Acho que est se comportando com muita coragem, e
seu pai ficaria orgulhoso de voc se a visse.
- Papai jamais poderia imaginar que algo to estranho pudesse acontecer
na casa do primo Druro, onde tudo sempre foi perfeito!
- Talvez um dia possamos contar ao conde o que est acontecendo. Ele
certamente ficar perplexo!
Alice deu um pequeno grito.
- No deve fazer isso! Tenho certeza de que Druro ficaria furioso, e no
acreditaria em nada que dissesse contra a sra. Denver. Ela o bajula
tanto, e de tal modo, que chega a dar nojo.
Gina no respondeu.
Ao chegar a seu quarto, pensava que era to grande a vontade de Alice de
encontrar defeitos no primo que, se ambos viessem a se casar, o casamento
deles seria um desastre.
"Alice  to adorvel e o conde to belo, que sem dvida formariam um
lindo casal. Porm seria impossvel serem felizes se ela vivesse
amedrontada o tempo todo. "
Lembrando-se dos rudos dos fantasmas, Gina ficou contente Por no ter
comentado sobre eles com Alice. Quando a nanny a deixou sozinha, foi at
o toucador e tirou um pouco de algodo de uma das gavetas; deixando o
chumao ao lado do travesseiro, Passou a dedicar-se  leitura de um dos
livros trazidos da biblioteca.
Leu at as onze horas, achando aquela leitura uma das mais interessantes
que fizera nos ltimos tempos. Uma das passagens descrevia como um conde
de Ingleton se escondera naquela casa Durante trs meses antes de poder
fugir para a Frana e juntar-se a Charles Stuart. Esse conde fora bem
mais afortunado do que o irmo, que, apanhado pelas tropas de Cromwell,
 fora enforcado em Tyburn.
Os captulos seguintes eram sobre os condes que se sucederam e cujas vidas
pareciam igualmente excitantes, porm Gina deixou essa leitura para a
noite seguinte.
Estando pronta para apagar as velas e pr um pouco de algodo em cada
ouvido, receou que mesmo com os ouvidos tapados talvez ouvisse os rudos
dos fantasmas. Teve ento uma ideia e levantou-se, indo novamente at o
toucador.
Ali havia um castial com uma vela que Rose havia deixado acesa. Pegando
o castial, apagou as velas que havia sobre o criadomudo e saiu do
quarto, fechando a porta sem fazer barulho.
Como esperava, as velas das arandelas do corredor j estavam quase todas
apagadas, mas havia claridade suficiente para alcanar sem problemas o
quarto vizinho do de Alice. Ao entrar, viu que esse aposento tambm era
luxuoso, porm diferente do ocupado por Alice.
Depois de colocar o castial sobre o criado-mudo, ergueu a colcha e notou
que a cama estava arrumada, caso um hspede chegasse inesperadamente.
com um sorriso nos lbios, entrou sob as cobertas, apagou a vela e fechou
os olhos.
"Se os fantasmas fizerem questo do espetculo, tero de se conformar com
a ausncia de pblico. "

CAPTULO V

Conforme fora combinado, Gina bateu  porta do quarto de Alice antes da
chegada da criada particular de Sua Senhoria. Segundos depois, a chave
girou na fechadura.
- Passou bem a noite? - Gina perguntou ao entrar no aposento.
- Muito bem. Posso at afirmar que me sinto como nos bons tempos esta
manh.
- Mas creio que ser melhor continuar fingindo que se sente fraca - Gina
sugeriu, olhando por cima dos ombros para se certificar de que ningum
podia ouvi-las.
- J me cansei de fingir, e tambm no vou mais deixar-me amedrontar. E
vamos almoar na casa de sir Charles - Alice acrescentou revelando seu
entusiasmo.
- Mas ter de se controlar quando estiver na frente da sra. Denver. Por
falar nisso, lembrei que tenho algo divertido para lhe contar.
Sorrindo, continuou:
- Dormi no quarto pegado ao seu esta noite. Agora tenho de deixar tudo em
ordem e voltar para meu prprio quarto, para ningum desconfiar de nada.
- Por qu?
- Porque tenho minhas suspeitas de que pelo menos alguns dos fantasmas
tm a cara da sra. Denver!
Alice deu uma risadinha.
- Ora, est inventando essa histria!
- Posso estar errada - Gina admitiu -, mas no deixa de ser uma
possibilidade.
Suas desconfianas comearam ao saber que a lady na qual o conde estava
interessado ficara to assustada que nunca mais voltara para Ingle
Priory. Se a sra. Denver estivesse realmente apaixonada pelo patro, 
claro que desejaria livrar-se de todas as suas rivais. Todavia, a
histria lhe parecia inverossmel.
"Seria impossvel o conde casar-se com uma mulher que tivesse sido sua
governanta", Gina pensou, no imaginando, em sua inocncia, que a sra.
Denver pudesse se contentar em ter o conde msmo fora dos laos do
casamento.
Porm era tolice perder tempo com conjecturas. Precisava voltar logo para
o quarto onde havia dormido. Foi o que fez; alisou bem os lenis e
cobriu a cama com a colcha. No devia provocar comentrios sobre a
mudana de aposentos.
Ao entrar em seu prprio quarto, encontrou a nanny a sua espera.
- Vou tomar o desjejum em companhia de lady Alice, nanny
- comunicou. - Diga tambm a Rose que eu gostaria de me transferir para o
quarto pegado ao de Sua Senhoria. Ela necessita de mim mais perto dela.
- Aquela mulher cheia de si no vai gostar de sua transferncia sem a
permisso dela - replicou a nanny preocupada.
- Ela no ter argumentos para recusar um pedido de Sua Senhoria, visto
haver inmeros quartos vagos nesta casa imensa.
Vestindo um chambre, Gina apressou-se e foi tomar o desjejum com Alice.
Ela j estava esperando a acompanhante e, ao v-la deu-lhe uma boa
notcia:
- Estou faminta esta manh! Quero tomar um desjejum reforado.
- Pea ovos e caf tambm.
Ao dizer isso, Gina viu que Alice estava amedrontada. Alm disso,
seria melhor ela no revelar seu sbito apetite.
- Est bem, eu farei o pedido! Se aquela mulher achar que sou intrometida
demais, no poder me detestar mais do que j me detesta!
- A sra. Denver deve ter inveja de voc. Pode ter certeza de que se o
primo Druro ficar olhando muito na sua direo, Gina, a megera sem dvida
a afogar no lago!
As duas deram uma risada abafada.
Quando a criada de lady Alice lhe trouxe o costumeiro ch fraco e umas
poucas coisas para comer, Gina pediu-lhe que trouxesse para sua Senhoria o
mesmo desjejum que fora trazido para si prpria.
- Bem,  uma atitude sensata - comentou a criada, embora surpresa.
- Logo voltar a ter a mesma aparncia de quando chegou, milady!
A moa saiu depressa do quarto, e Gina disse:
- Uma coisa est a seu favor, Alice. Tenho a impresso de que nenhum dos
criados gosta da sra. Denver, e no colaboram com seus planos diablicos.
- Creio que ela faz tudo sem ningum saber e sem levantar suspeitas. Eu
mesma mal posso acreditar que fui to idiota a ponto de nem desconfiar
que era o medicamento ministrado por ela que me deixava to fraca.
As duas amigas tomaram um farto caf da manh, e depois Gina-ainda
insistiu para Alice colocar bastante mel de favo em sua torrada.
- No sei que vestido usar - comentou Alice, mostrando-se indecisa, pouco
tempo depois. - Tenho vrios vestidos novinhos que lady Mary comprou para
mim logo que cheguei. So todos lindos!
- Mas no so pretos, no  mesmo?
- No. - Alice sacudiu a cabea. - H alguns brancos e outros malva. Lady
Mary comprou-os para eu usar depois de seis meses da morte de papai.
Portanto, a partir de agora.
- Deixe-me v-los!
Alice abriu o guarda-roupa, e Gina viu vestidos realmente lindos nos
cabides.
- Voc tem sorte - exclamou. - Assim que receber dinheiro suficiente, vou
comprar tecido para nanny fazer um vestido novo Para mim.
Olhando detidamente para Gina, Alice sugeriu:
- J que temos o mesmo tamanho, por que voc no escolhe um dos meus
vestidos para usar?
- Ora, no posso fazer uma coisa dessas!
- Por que no?
- Porque so seus. No se esquea de que sou uma simples acompanhante.
- Agora est sendo uma tola! - Alice exclamou, rindo daquele excesso de
escrpulo. - Voc  minha amiga, e desejo v-la bem bonita quando me
acompanhar  casa de sir Charles.
Na verdade, Gina no precisou de muita persuaso. Tinha conscincia de
que seus vestidos modestos j se achavam bem surrados.
Finalmente as duas amigas partiram numa carruagem elegante, puxada por
dois dos cavalos excepcionais do conde, tendo na boleia o cocheiro e um
cavalario.
Para Gina era como se, mais uma vez, vivesse um conto de fadas.
A casa de sir Charles ficava a pouco mais de duas milhas de distncia. O
proprietrio j se achava no alto dos degraus para receber as visitantes.
Gina constatou que a casa era um exemplo perfeito da arquitetura do
perodo da rainha Ana, no muito grande e construda em meio a um jardim
lindamente projetado. Em resumo, era uma casa de sonhos, que Alice
certamente adoraria.
- Estou imensamente feliz em receb-las! - disse sir Charles. Cheguei a
recear que arranjassem uma desculpa no ltimo instante e no viessem.
- Estvamos ansiosas para conhecer sua casa, e j vi que  adorvel,
exatamente como a imaginei! - exclamou lady Alice, radiante. Parecia to
bem e estava to linda aquela manh que sir Charles no se cansava de
fit-la.
O interior da casa era igualmente encantador.
Depois do delicioso almoo, os trs foram para uma sala de estar. Era
evidente que sir Charles desejava ficar a ss com Alice, e Gina muito
discretamente deu uma volta pela sala, como se estivesse interessada nos
quadros. Depois foi para o cmodo pegado, uma ante-sala onde tambm havia
belos quadros. Uma porta de correr dava para o jardim.
Gina quis caminhar entre os lilases em plena florao, entre os canteiros
de tulipas e narcisos e sob as amendoeiras floridas. Ocorreu-lhe que o
conde talvez se zangasse ao ficar sabendo que Alice se mostrava
entusiasmada por sir Charles. Quanto a este, era bvio que desde que a
vira se encantara com ela. Durante o almoo mostrara-se to enlevado que
chegou a se esquecer do que estava dizendo, antes de ter concludo uma
sentena.
"Sem dvida, trata-se de amor  primeira vista", pensou Gina.
Silenciosamente, fez uma breve orao para o conde no estragar tudo
quando soubesse desse romance.
Seu bom senso, no entanto, a fez ver que estava indo longe demais: talvez
fosse apenas impresso sua e no houvesse nenhum sentimento especial
entre sir Charles e Alice.
Achando que ficara muito tempo no jardim, voltou para a sala de estar. Os
dois conversavam, e sir Charles segurava a mo de Alice.
O anfitrio levou as duas convidadas para conhecer outra parte da casa,
porm parecia s falar a Alice e s dar ateno a ela. Ao se despedirem,
ele lhe disse em voz baixa:
- Vou v-la amanh. Preciso v-la outra vez!
- Estarei esperando-o - Alice murmurou.
A carruagem partiu, e Alice no parou de acenar at a casa desaparecer de
vista. com um suspiro, disse baixinho:
- Foi maravilhoso!
- Estou feliz porque voc apreciou a visita.
- Nunca encontrei algum to encantador e... Acho que Charles gosta de
mim...
Percebendo seu modo de falar hesitante, Gina assegurou-lhe:
- Tenho certeza de que ele gosta demais de voc! Mais do que isso: sir
Charles est apaixonado!
Alice fitou-a e juntou as mos.
- Oh, Gina, espero que voc tenha razo. Desde o instante em que o vi
senti o corao dar um salto, e soube que Charles era o homem dos meus
sonhos.
Durante um pequeno trecho a viagem foi feita em silncio, que Alice
rompeu para dizer, assustada:
- Talvez o primo Druro fique muito zangado se souber desses encontros com
Charles!
- Ele no precisa saber de nada. Enquanto se diverte em Londres, o conde
certamente nem se lembra de ns.
Todavia, Gina se enganava. A carruagem entrava em Ingle Priory Quando
Alice deu um pequeno grito de repente.
- O que foi? - Gina perguntou, alarmada.
- Olhe! Olhe l!
Alice indicou o alto da casa, e Gina viu o estandarte do conde
desfraldado.
- O estandarte de Druro indica que ele est em casa! De fato, ao entrarem
no hall, Newman comunicou:
- Sua Senhoria chegou, milady, e encontra-se no momento em seu gabinete.
Gina ainda no conhecia o gabinete particular do conde, que no passado
devia ter sido o escritrio do abade. Notando que Alice empalidecera ao
seguir Newman, segurou-lhe a mo.
- Anime-se! Ele no vai engoli-la viva!
Alice esforou-se e esboou um sorriso. Gina continuou:
-  mais do que certo que seu primo ficar contente ao constatar que voc
melhorou. Lembre-se de que foi para isso que me contratou.
Compreendendo que a amiga estava certa, Alice apertou-lhe a mo, e
entraram assim, de mos dadas, no gabinete.
Ao ver o conde de p diante da lareira, Gina achou-o mais fantstico e
dominador do que quando o conhecera. Tambm estava muito elegante em seu
traje de viagem. com alvio, notou que ele sorria ao v-las.
- Boa tarde, Alice!  uma alegria v-la de p e com tima aparncia!
- Estou bem, obrigada, primo Druro - Alice respondeu -, e devo tudo a
Gina.
Erguendo-se depois de ter feito uma mesura, Gina notou o olhar penetrante
do conde sobre ela. com certeza ele estranhava sua elegncia, uma vez que
estava usando o vestido emprestado por Alice e o chapu enfeitado com
camlias. Nem parecia a mesma moa de vestido surrado que havia
entrevistado.
Um receio sbito a assaltou. O conde poderia achar que a acompanhante de
sua pupila se aproveitava da doena dela, e quem sabe desejasse despedi-
la.
Entretanto, o conde havia notado a expresso de temor que tomara conta de
seu rosto e tentou dissip-la.
- Devo dar-lhe os parabns, srta. Borne. Soube que conseguiu convencer
minha prima a fazer um passeio de carruagem, e que hoje foram almoar em
casa de um dos vizinhos.
Gina desejou que a informao tivesse vindo de Newman e no da sra.
Denver. Ento explicou ao conde:
- Fiquei conhecendo sir Charles Carstairs casualmente, pouco antes de
chegar a Ingle Priory.
- J fiquei sabendo disso tambm. Teve muita coragem, dispondo-se a
controlar um cavalo assustado.
- No houve realmente perigo, milorde. No dia seguinte, sir Charles veio
at aqui agradecer-me.
- Ns o convidamos para almoar conosco e apreciamos muito sua companhia
- Alice aparteou em tom desafiador.
- Tenho certeza disso! Charles  um rapaz encantador e excelente
cavaleiro! - o conde observou com um brilho nos olhos, voltando-se a
seguir para Gina. - Vejo que ainda no satisfez seu grande desejo de
montar um dos meus cavalos, srta. Borne.
- Eu esperava a deciso de lady Alice, conforme suas instrues, milorde.
- J me decidi - Alice interps. - Cavalgaremos amanh.
- Nesse caso, eu as acompanharei. Estou interessado em saber se vocs
duas so boas cavaleiras.
Era impossvel os dois no notarem o entusiasmo de Gina ao exclamar:
- Ser to excitante!
- E agora, que tal vocs tirarem o chapu? Alice vai me contar como a
srta. Borne, ou Gina, se vocs preferirem, conseguiu transform-la em
outra pessoa.
A pergunta era to inesperada que Alice olhou para Gina, numa indagao
silenciosa do que deveria dizer. O conde, homem de crebro brilhante,
logo compreendeu que a explicao no era simples. Embora curioso,
esperou pacientemente.
Foi Gina quem rompeu o silncio.
- Seria melhor conversarmos sobre o assunto em outra ocasio. E, como
vamos tomar o ch em sua companhia, lady Alice e eu gostaramos de subir
para nos arrumar.
- Sim, isso mesmo! - Alice apressou-se em concordar.
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Segurando a mo da amiga, puxou-a e caminhou em direo  porta.
Voltou
se para acrescentar antes de sair:
- No nos demoraremos, primo Druro. Espero que sirvam o ch na sala de
estar.
A evidente aflio que as duas jovens demonstravam para sair de seu
gabinete surpreendeu o conde. com uma ruga profunda entre as
sobrancelhas, ele disse a si mesmo que algo incomum estava acontecendo, e
ele pretendia descobrir o que era.
- Vai contar-lhe a verdade? - Alice perguntou num sussurro, ao subir a
escada com Gina.
- Creio que seria arriscado p-lo a par de tudo to cedo - Gina
respondeu, mostrando-se pensativa. - Seu primo poder no acreditar em
ns; ento, interrogar a sra. Denver, que o convencer de que somos duas
mentirosas que s querem causar problemas.
- Tem razo. Talvez seja melhor dizer-lhe que voc fez sentirme melhor
apenas porque  jovem e me tem feito companhia.
- Exatamente. Ele vai achar normal voc estar se recuperando, pois
segundo o mdico no havia nada propriamente errado com voc.
Elas desceram para o ch e encontraram o conde esperando-as na sala de
estar, tendo j trocado as roupas de viagem.
- Bem, quem servir o ch? - o conde perguntou.
- Gina far isso - Alice respondeu, sentando-se numa poltrona. - Quero
que voc nos conte as novidades de Londres e fale sobre as festas a que
tem ido.
O conde arqueou as sobrancelhas.
- No se mostrou interessada em festas quando estive aqui pela ltima
vez.
- Quero me esquecer de como me sentia naquela ocasio Alice observou em
tom casual. - Tambm quero saber por que veio para Ingle Priory de modo
to inesperado.
- Na verdade, vou receber hspedes. Eles chegaro amanh, e pretendo
organizar uma steeplechase para entreter meus convidados masculinos.
- Est querendo dizer que as ladies no podem participar da corrida de
obstculos? - Alice perguntou.
- Claro que no! Jamais me passou pela mente que voc pudesse se
interessar por esse esporte! - disse o conde, olhando para a pupila,
surpreso. Mal podia acreditar que aquela era a mesma jovem aptica, fraca
demais at para falar, muito menos capaz de cavalgar, que deixara em
Ingle h poucos dias.
Gina entregou-lhe a xcara de ch e foi sentar-se ao lado da amiga. Sem
tirar os olhos dela, o conde notou-lhe os movimentos e o andar gracioso;
tambm disse a si mesmo que a srta. Borne devia ter em seu poder um
remdio miraculoso para poder transformar Alice daquela forma
surpreendente.
Veio-lhe  mente que, ao comparar as duas jovens a deusas gregas, no
havia exagerado. Nunca vira antes duas criaturas to adorveis lado a
lado; qualquer um de seus conhecidos certamente teria a mesma opinio.
Druro lembrou-se das palavras de um amigo:
- Voc tem tanta sorte, Druro, que se cair dentro de uma mina de carvo
acabar descobrindo ouro nela.
Na ocasio ele achara muita graa desse comentrio, e agora dizia a si
mesmo que o amigo tinha razo. Era um homem de sorte por ter descoberto
aquelas duas jovens de beleza excepcional. Ento disse em voz alta:
- Como voc est bem melhor, Alice, poder assistir  steeplechase, e por
certo organizarei um pequeno baile para sbado  noite. Convidarei sir
Charles, naturalmente.
Vendo a expresso de felicidade no rosto da pupila, Druro acrescentou:
- Melhor ainda: mandarei um cavalario  propriedade de seu amigo, com um
convite para ele tambm tomar parte na corrida.
- Tenho certeza de que sir Charles vai ficar muito contente Alice
asseverou.
- E quanto a voc? - O conde dirigia-se a Gina. - Gosta de bailes?
- Como nunca fui a um baile, ficaria muito feliz se me permitisse tomar
parte nesse, milorde.
si
-  claro que Gina tem de estar presente! - exclamou Alice
- O baile no teria graa sem ela.
- J a inclu entre os convidados - tranquilizou-a o conde. Na verdade,
ele viera para sua propriedade ignorando o estado
de sade da pupila. Agora que a via bem-disposta, por certo desejava que
participasse de todas as atividades, e sem dvida a srta. Borne devia
acompanh-la.
Atento a detalhes, lembrou-se de que ela talvez no tivesse um vestido
apropriado, embora, a julgar pelo que estava usando no momento, lhe
parecesse que a srta. Borne se trajava muito bem. No mesmo instante
ocorreu-lhe que aquele vestido devia ser de Alice.
Como se estivesse lendo os pensamentos do conde, Gina desculpou-se,
levemente embaraada:
- Espero que no se incomode por lady Alice ter-me emprestado este
vestido para irmos almoar com sir Charles.  que... com a morte de meus
pais, fiquei sem poder comprar roupas novas.
- Como sabia o que eu estava pensando? Gina respondeu.
- Pode parecer estranho, mas s vezes consigo ler os pensamentos das
pessoas. Alm disso,  bvio que este vestido  luxuoso demais para ser
usado por uma acompanhante.
- Realmente, eu estava pensando se voc teria roupas apropriadas para o
jantar festivo de amanh e para o baile de sbado.
- Empresto alguns de meus vestidos para ela - interps Alice depressa. -
Lady Mary comprou-me vrios vestidos de baile, e ainda no usei nenhum!
Gosto demais de Gina, primo Druro; ela tem sido muito bondosa comigo, e
desejo retribuir sua dedicao.
- Tambm tenho motivos para ser-lhe grato, srta. Borne - disse o conde,
surpreendendo as jovens. - Sem dvida voc deixou Alice muito melhor e
mais feliz.
- Ento voc no se importa se ela usar meus vestidos?
- Os vestidos so seus; pode fazer com eles o que quiser. S acho que
deve comprar mais alguns. J que se sente bem-disposta, talvez queira ter
muitos vestidos novos.
O conde falava com uma nota divertida na voz, o que fez Gina dizer
depressa:
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- Por favor... No quero abusar da bondade de lady Alice. Chego a me
sentir embaraada.
- No est abusando, de forma alguma! - protestou Alice. - E pare de me
chamar de "lady Alice" s para impressionar o primo Druro!
O conde riu.
- Vocs duas tratem de me obedecer. Estou em minha casa, fao o que
quiser e sempre tenho razo!
Depois do ch, o conde foi cuidar da correspondncia, e as duas moas
subiram juntas a escada, felizes por tudo haver corrido to bem. O mais
importante era que o conde havia ficado obviamente satisfeito ao ver a
prima alegre e disposta.
A sra. Denver estava no primeiro patamar, porm Gina no a reconheceu de
imediato. Como Alice lhe dissera, a mulher se transformava com a chegada
do patro. Naquele momento ela usava um penteado de acordo com a moda,
fizera uma leve maquilagem e sem dvida parecia muito mais nova e mais
bonita.
Como convinha a uma governanta, usava o tradicional vestido de seda
preta, porm muitssimo bem assentado e modelando-lhe o corpo, mas no
trazia a corrente de prata  cintura, onde prendia as chaves.
Quando as duas chegaram ao primeiro patamar, a sra. Denver recomendou a
lady Alice:
-  imprescindvel que Vossa Senhoria descanse um pouco depois de
exercitar-se tanto. Seu remdio j est ao lado da cama, e acho
importante que tome uma dose agora, caso contrrio se sentir cansada
demais para jantar com Sua Senhoria.
-  muita bondade sua ter pensado nisso - respondeu Alice suavemente,
afastando-se a seguir com Gina.
Esta sentiu novamente que a governanta as seguia com os olhos cheios de
maldade. Assim que entraram no quarto de lady Alice e fecharam a porta, a
jovem desabafou:
- Ah, essa mulher est mesmo determinada a me deixar to mal que seja
incapaz de descer para jantar com Druro esta noite. Ela j fez isso
antes, logo que eu cheguei aqui.
- Voc nunca desconfiou que era o remdio que a fazia sentir Amanho
cansao?
- Naquela ocasio, eu adormeci profundamente e ningum conseguiu me
acordar!
Gina achou que tanto o conde como o mdico deviam ser ingnuos demais
para no se darem conta de que a exausto e apatia de Alice no tinham
ocorrido naturalmente. Por outro lado, o conde devia confiar plenamente
na sra. Denver, que, sem sombra de dvida, era uma governanta muito
eficiente.
Indo at a janela para despejar o remdio, teve certeza de que se
contasse ao conde a verdade sobre a "doena" de Alice ele no acreditaria
nela.
Antes de se retirar para seu quarto, onde pretendia ler um pouco enquanto
Alice descansava, Gina escolheu o vestido que usaria ao jantar.
Mais tarde as duas desceram. Ao v-las, ambas vestidas de branco,
entrando na sala de estar, o conde achou que naquele momento elas
pareciam, mais do que nunca, deusas gregas. Encantado, disse a si mesmo
que no jantar da noite seguinte seus convidados teriam a mesma reao
quando vissem Gina e lady Alice juntas. A beleza de ambas s poderia
deix-los extasiados.
S no poderia afirmar o que Myrtle pensaria a respeito de sua pupila e
da acompanhante. Era bem provvel que sentisse cime de Alice e que se
esforasse para ignorar Gina, devido a sua condio de simples empregada.
Teria sido muito melhor se no tivesse includo Myrtle entre os hspedes.
Poderia ter convidado s as outras beldades e os cavalheiros que lhes
pudessem servir de par. Mas agora era tarde para arrependimentos.
Estando de muito bom humor e ansioso para ver a casa cheia de convidados,
Druro sentiu-se inclinado a dar ateno a Alice e Gina e a diverti-las.
Sem dvida ele era um homem inteligente, e sabia ser fascinante quando se
dispunha a isso.
Em Londres s vivia cercado de mulheres mais velhas, portanto mais
sofisticadas e experientes, com quem mantinha uma conversa pitoresca,
espirituosa e cheia de duplo sentido.
No entanto, o riso fcil, a espontaneidade e as observaes ingnuas das
duas mocinhas acabaram por diverti-lo muito mais do que havia esperado.
86
Alice, por ter viajado bastante, e conhecido os mais diferentes pases,
convivendo com povos estranhos, de todas as raas e credos, tivera
aventuras como nenhuma outra garota de sua idade.
Gina, por sua vez, mostrava-se perceptiva e cheia de imaginao,
revelando grande bagagem cultural que Druro no tardou a perceber ser
resultado de muita leitura.
Realmente, ela no apenas tinha grande capacidade de absorver o que lia,
como tambm, na medida do possvel, vivia o que assimilava com suas
leituras.
O conde constatou que seus pontos de vista em relao a certos assuntos
eram originais e inteligentes.
Bem mais tarde, quando Alice e Gina foram se deitar, Druro disse a si
mesmo que aquela noite havia sido muito agradvel, nada ficando a dever
quelas passadas em Londres em companhia de seus amigos prediletos ou de
uma linda mulher como Myrtle.
"Essas duas jovens so realmente sem igual", pensou ele. "Posso me
vangloriar de t-las comigo! "
No andar superior, as duas jovens entraram no quarto de Alice e viram,
sem surpresa, outro copo de remdio sobre o criado-mudo.
- Se fosse o caso de atribuir notas  sra. Denver, ela teria s as mais
altas pela sua persistncia - comentou Alice.
- O que me preocupa  o que acontecer quando ela perceber que o remdio
no faz mais efeito - Gina murmurou.
- Sei que no vai me assassinar com Druro nesta casa. Portanto, ser
melhor contarmos tudo a ele antes de sua partida.
Gina no respondeu; foi at a janela jogar fora o medicamento, e ao
voltar decidiu:
- Temos de ter calma. Por enquanto no podemos aborrecer Sua Senhoria,
contando-lhe que nesta casa h coisas muito erradas e uma pessoa
perversa. Afinal, ele se sente to feliz  espera de seus convidados!
- Espero que voc tenha razo - Alice falou sem muita convico.
- Bem, feche a porta  chave novamente. Eu estarei no quarto pegado a
este; se acontecer qualquer coisa, grite bem alto, que poderei ouvi-la.
- Se a sra. Denver quiser entrar neste quarto, ter de subir pela
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parede at alcanar as janelas, ou ento espremer-se e passar por
baixo da porta!
As duas riram. Alice tocou, chamando sua criada, e, depois de dar-lhe um
beijo de boa-noite, Gina foi para seu quarto.
A nanny j a esperava, e comentou ao v-la:
- Voc reparou como a sra. Denver se enfeitou toda? Achei isso uma
vergonha. Por que ser que Sua Senhoria no a repreende?
- A meu ver, ele nem olha para ela.
- Mas ela faz tudo para ele not-la! - retorquiu a ama acidamente.
Notando a expresso aborrecida da nanny, Gina decidiu abrirse com ela.
- Tenho algo importante para lhe contar. Sente-se um pouco e oua-me.
A ama atendeu o pedido de Gina apreensiva. Esta contou em poucas palavras
que havia desconfiado que o medicamento dado a lady Alice era ludano. Ao
encerrar a narrativa, a nanny encaroua, achando aquilo inacreditvel.
- Nunca ouvi nada mais infame! Voc tem de procurar Sua Senhoria e
contar-lhe quem  essa mulher! No   toa que jamais confiei nela.  uma
assassina!
- Pensei em fazer o que est sugerindo, nanny; todavia, o conde pode no
acreditar em mim e nos mandar embora.
A nanny ficou tensa.
- Lady Alice e eu decidimos ficar caladas por enquanto - Gina continuou.
- Fiz questo de contar a voc o que est acontecendo por me sentir muito
sozinha diante de to grande responsabilidade. Pode-se dizer que a vida
dela est em minhas mos!
- Entendo seu modo de pensar, mas e se acontecer alguma coisa a lady
Alice? Voc jamais se perdoaria.
- No acredito que a sra. Denver tente livrar-se de lady Alice usando
qualquer outro mtodo.  muito esperta para arriscar-se a ser descoberta.
Para maior segurana, sugeri que Sua Senhoria trancasse a porta  chave e
fui dormir no quarto pegado ao dela.
- Ningum percebeu nada?
- Tive o cuidado de bater  porta do quarto para que ela o dstrancasse
antes de sua criada vir acord-la, e depois voltei para este quarto.
- Tudo isto me assusta! Voc vai fazer a mesma coisa esta noite?
- Naturalmente, mesmo que a sra. Denver no possa entrar no quarto de
lady Alice.
- Um dos criados estava contando que muita gente diz que h escadas
secretas e esconderijos nesta casa - disse a nanny depois de ter ficado
um momento em silncio.
Gina arregalou os olhos.
- Voc no acha que... - Ela parou subitamente, depois suspirou aliviada.
- No tem perigo. O quarto de lady Alice no tem painis como aqueles que
disfaram passagens secretas que conduzem a esconderijos.
- Ento est tudo bem - comentou a nanny, mostrando-se mais sossegada. -
Mas deve cuidar-se tambm, querida.
- Se a sra. Denver me procurar, no me encontrar.
- Rezo para que passe bem a noite. No confio nessa mulher nem um
pouquinho, esta  a verdade!
- No se preocupe, nanny. Basta ficar alerta. Estou feliz por ter-lhe
contado o que est acontecendo.
- Pode ter toda a confiana em mim, e tome cuidado. Se quer saber, estou
muito preocupada com voc!
- Tenho plena certeza de que papai e mame velam por mim
- Gina respondeu confiante.
A nanny deu-lhe um beijo de boa noite e saiu do quarto resmungando.
Entrando debaixo das cobertas, Gina retomou a leitura sobre os condes de
Ingleton, e leu at achar que era hora de deixar seu quarto e ir
cuidadosamente pelo corredor at alcanar o aposento vizinho ao de Alice.

CAPTULO VI

Depois de um excitante galope pelo campo, os quatro refrearam os cavalos.
O conde dirigiu-se a Gina com um brilho travesso nolhar.
- Meu receio de que voc fosse m cavaleira era desnecessrio. Na
verdade, estou perplexo. Voc monta com extraordin percia!
- O modo como diz isso no soa como um elogio. Mas admito que jamais montei
um cavalo to maravilhoso como este!
- Gostei de ouvir isso!
Druro voltou-se e viu Alice conversando animadamente com si Charles.
Desejando ficar sozinhos, os dois tocaram seus animais em direo ao
bosque que marginava a campina.
Naquela manh, ao descer com Alice para cavalgar em companhia do conde,
Gina viu sem surpresa sir Charles conversando com  Druro. Ele viera a
Ingle inesperadamente.
- Vim em pessoa agradecer seus convites extremamente ama veis - sir
Charles dizia ao conde. - Aceito ambos com imenso prazer!
- Imaginei que os aceitaria, e fao-lhe mais um: vamos cavalgar com duas
criaturas adorveis, que ficaro encantadas em nos ter como seus
acompanhantes.
Druro no deixou de notar o modo como sir Charles olhava para Alice, que
se aproximava ao lado de Gina. Apesar de um pouco tmida, a jovem lady
trazia um brilho radioso no rosto.
Os quatro partiram para a campina que havia do outro lado do parque, uma
rea plana, excelente para um galope. Alice seguiu  frente com sir
Charles, e o conde acompanhou Gina.
Vendo-os desaparecer no bosque, o conde voltou-se novamente para Gina,
pedindo-lhe:
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- Poderia me contar como realizou o milagre de trazer a "Bela Adormecida"
de volta  vida? Confesso que estou ansioso para saber o que aconteceu.
Gina respirou fundo. Estava feliz demais cavalgando ao lado do conde
naquela manh de sol para permitir que a simples lembrana da sra. Denver
toldasse seu contentamento.
Vendo o conde  espera de uma resposta, rogou-lhe:
- Por favor... No consigo neste momento pensar em nada que no seja
estar montando este animal fantstico! Confesso que nunca me senti to
feliz!
- Creio que omitiu algo importante.
- O que foi?
- No mencionou a pessoa que a acompanha. Ela riu com espontaneidade.
- Nem  preciso dizer, pois sabe perfeitamente bem como me sinto
agradecida pelo que tem feito por mim. Quanto a seus cavalos, asseguro-
lhe que nenhum homem pode ter animais que os superem!
O conde pensou, ligeiramente desapontado, que no era esse tipo de elogio
que costumava receber. Ladies como Myrtle, por exemplo, jamais perdiam
uma oportunidade de lhe dizer que ele era maravilhoso.
Ao continuar cavalgando ao lado de Gina, Druro imaginou que ela talvez o
considerasse um velho e, sem dvida, como Alice, teria preferido a
companhia de um cavalheiro mais jovem. Ocorreulhe que nunca havia tido
esse tipo de pensamento desanimador.
Gina comeou a falar sobre cavalos e demonstrou ter um conhecimento
surpreendente sobre o assunto.
- A quantas corridas clssicas j assistiu? - perguntou o conde, que
nunca havia conversado sobre esporte com mulher alguma.
- A nenhuma. S tive ocasio de assistir a corridas realizadas Perto de
casa e, claro, a muitas corridas ponto a ponto.
- Nesse caso terei de tomar as providncias necessrias para voc e Alice
irem me ver ganhar a Taa de Ouro em Ascot - disse ele, vangloriando-se.
Gina o fitou com os olhos arregalados de felicidade. Porm, ao lembrar-se
de que Alice iria para Londres durante a temporada,
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no precisando mais de sua companhia, achou que chegava ser maldade do
conde faz-la alimentar falsas esperanas.
Ele devia estar ciente de que por ocasio das corridas de Ase, ela j
teria sido dispensada. Esse pensamento foi-lhe to penoso que, fustigando o
cavalo, entrou no bosque  frente do conde.
Enquanto a seguia, Druro admirou-lhe a beleza do porte, a cii tura muito
fina e seu modo gracioso de montar, como se fosse ser etreo dominando o
fogoso animal. Chegava a ser impressionante que uma criatura to delicada
desse conta de controlar o grei de puro-sangue, revelando-se uma perita
amazona.
"Tenho de descobrir mais coisas sobre a srta. Borne", disse para
si mesmo.
Ao mesmo tempo ocorreu-lhe que era imperioso descobrir tan bem que
mistrio existia entre as duas moas e por que Alice havia se recuperado to
depressa.
O almoo transcorreu num clima alegre, porque o conde se acha v de
excelente humor, enquanto sir Charles no poupava esforos para
impressionar Alice.
Depois do almoo o anfitrio sugeriu que, j que se haviam exer citado
bastante pela manh, poderiam fazer um passeio de carruagem, que seria
bem menos cansativo.
- Conduzirei meu faetonte novo, Charles, e voc ficar com o amarelo e
preto, que, na minha opinio, tem molas muito me lhores, embora os
fabricantes no concordem comigo.
Charles aceitou a sugesto prazerosamente. Estava disposto a fazer o que
Druro quisesse, desde que tivesse a companhia de Alice. Ficou combinado
que partiriam s trs horas.
- Vou mostrar-lhe minha propriedade - disse o conde a Gina -, ou melhor,
uma pequena parte dela, antes de voltarmos para o ch.
- A que horas seus hspedes chegaro, milorde?
- No antes das seis.
- Isso me alegra - ela comentou sem pensar.
Druro a ajudou a subir no faetonte. Do alto da carruagem, Gina baixou os
olhos, que se encontraram com os do conde, prendendo-se aos dele. Foi
difcil para ambos desviarem o olhar
porm, com esforo, Druro deu a volta por trs do faetonte e ocupou seu
lugar de condutor, pondo o veculo em movimento.
Gina olhou para a casa e viu um rosto  janela de um dos quartos
principais. S podia ser a sra. Denver, e a lembrana de sua expresso
maligna fez a jovem estremecer. Felizmente Alice e Charles j haviam
partido  frente deles.
Aliviada, Gina logo viu que o conde no parecia mais interessado em saber
como havia ocorrido a sbita melhora de Alice. Em vez disso ele passou a
falar sobre os melhoramentos feitos na fazenda, as novas casas
construdas e os campos que estavam sendo cultivados.
Tendo sempre vivido no campo, Gina entendia do assunto e fez perguntas
inteligentes; o resultado foi uma conversa animada e interessante.
De volta para a casa, Alice e Gina foram se arrumar para o ch. Ao
seguirem pelo corredor, Alice comentou:
- Acho que no vou descer, j que Charles voltar para sua casa. Prefiro
descansar antes do jantar.
- Charles tambm jantar conosco.
- Sim, eu sei, e  por isso que no tenho o menor desejo de permitir que
as beldades convidadas por Druro me eclipsem. At a mais recente
conquista do primo vir para Ingle. Lady Myrtle  aclamada por sua beleza
aonde quer que v! Naturalmente, no quero que Charles se encante com
ela!
- Tenho certeza de que nenhuma dessas mulheres pode ao menos se comparar
com voc.
- Gosto tanto de Charles! Gosto muito mesmo! E ele disse que tne ama!
- Oh, Alice,  maravilhoso! Acho que ele se apaixonou por voc na
primeira vez em que a viu.
- Foi o que Charles me disse... Mas estou com medo de primo Druro no
aprovar nosso namoro.
Gina ficou confusa.
- No entendo; se ele est apaixonado por lady Myrtle, por que haveria de
querer se casar com voc?
- Druro no pode casar com ela, Myrtle j  casada. Ele quer...
- J  casada? Como pode ser?
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- Claro que  casada! Homens como o primo Druro no tem interesse em
debutantes. Morrem de medo de que as mames an biciosas acabem
convencendo-os a levar-lhes as filhinhas ao alta
- Mas voc mesma disse que o conde quer despos-la!
- Isso  diferente. Druro quer uma esposa para lhe dar filho Como papai
sempre dizia, quer uma linda jovem para enfeitar  sua mesa, usando as
jias Ingleton!
Assim que entrou no quarto da amiga, Gina foi abrir a janela como se
precisasse de ar fresco. Por fim comentou:
- Isso  to srdido e... to sem romantismo! Alice fechou a porta.
-  exatamente como voc diz - Alice concordou. - E quero me casar com
Charles. Sei que serei feliz com ele e me sentirei bem morando naquela
casa adorvel. Ser maravilhoso ouvi-lo dizer o quanto me ama!
Gina afastou-se da janela.
- Pois ento  o que deve fazer. Se as coisas piorarem, voc poder fugir
com ele.
Alice deu um pequeno grito, e, estendendo os braos, passou-os ao redor
do pescoo de Gina e a beijou.
- Voc  to inteligente, Gina! Salvou-me da perversa sra. Denver, e
agora vai me salvar do primo Druro. Pode ter certeza de que, se eu no
puder me casar com Charles... continuarei a tomar aquele medicamento
abominvel... at morrer!
- Voc vai se casar com ele!
Gina sentiu que falava profeticamente e que suas palavras se tor nariam
realidade.
A criada entrou no quarto para ajudar lady Alice a se trocar, e Gina
saiu. Logo a nanny veio atend-la tambm.
- Receio que no poder mudar-se para o quarto vizinho ao de lady Alice,
como pretendia - comunicou a nanny. - Esse aposento j foi preparado para
um dos hspedes de Sua Senhoria que chegar esta noite.
- Oh, nem havia pensado nisso. Nesse caso, terei de me entender com os
fantasmas!
- Ser que eles aparecem todas as noites?
- No posso responder porque dormi as duas ltimas noites no
no outro quarto, como j lhe contei. Mas tudo indica que a sra. penver
tem muito a ver com esses barulhos.
- Se essa mulher toda pintada e empoada pode se transformar em fantasma,
eu posso ser a rainha de Sab!
Gina riu.
- Oh, nanny, voc  to engraada! Imagino como deve ter ficado ao ver a
mulher to transformada.
- No acreditei no que vi! J lhe disse que  uma vergonha! Todos l em
baixo ficam dando risadinhas pelas costas dela.
Gina achou que era verdade o que a ama dizia, mas estava com pressa,
embora no quisesse admiti-lo, pois pretendia tomar ch a ss com o
conde. Por isso, deixou o quarto quase correndo, entusiasmada com a nova
oportunidade de manter uma conversa agradvel com ele.
Durante o ch, sentiu continuamente o olhar do conde incidir sobre ela.
Em dado momento, ele deps a xcara e disse:
- Tenho ainda um pouco de tempo antes da chegada de meus hspedes. Creio
que voc ainda no viu a galeria de quadros.
- Tem razo. Como sabe que eu ainda no a visitei?
- Simplesmente porque no fez nenhuma aluso a ela. Portanto, poderemos
ir at l agora.
Deixaram a sala de estar, seguiram pelo corredor e entraram no salo de
jantar.
- Este  o cmodo mais maravilhoso em que j estive! - Gina comentou.
- Por que diz isso? - o conde perguntou surpreso.
-  que, alm de sua beleza, sente-se aqui a presena dos monges e
respira-se uma atmosfera de santidade.
- Eu sentia isso quando era menino. Mas quando cresci achei que tudo no
passava de pura imaginao.
- Oh, isso no! Quase posso ver os monges!
Ao notar a expresso sonhadora de Gina, o conde pensou que se estivesse
ali com outra mulher diria que ela "fazia gnero", querendo agradar-lhe
por se achar na casa dele. Porm, tratando-se de Gina, isso era
impossvel; ela era sincera, e o que havia dito viera-lhe do fundo da
alma.
Gina continuou:
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- Sinto que aqui est o corao de Ingle Priory. Este salo ter sempre
um significado especial em sua vida.
Deixando o salo, caminharam por outro corredor, passaram pela biblioteca
e chegaram finalmente  galeria de quadros, um cmodo longo cujas paredes
se cobriam de telas magnficas onde havia janelas estreitas e altas, que
chegavam quase at o teto. Diante da beleza do aposento, Gina juntou as
mos e soltou uma exclamao deslumbrada.
- No  interessante?
- Interessante?  magnfica! - comentou ela, extasiada.  medida que
seguia ao lado do conde, vendo e analisando as
telas, Gina ia achando uma mais fascinante que a outra.
No s os ancestrais do conde haviam sido grandes colecionadores, mas ele
prprio vinha acrescentando obras de mestres ao acervo desde que herdara
o ttulo.
- Aprendi com mame a reconhecer as verdadeiras obras de arte - disse
ele.
- Tambm foi mame quem me ensinou a apreci-las - comentou Gina com um
sorriso. - Nunca, porm, imaginei que iria ter a oportunidade de ver uma
coleo to fabulosa!
Ela ficou um instante parada diante de um quadro particularmente lindo,
pintado por Canaletto, quando uma voz vinda da porta fez-se ouvir:
- Procuram por Vossa Senhoria; alguns hspedes j chegaram.
Era a sra. Denver quem falava. Vendo a mulher e conhecendo-lhe a maldade,
Gina receou que ela pudesse at prejudicar os quadros.
- No percebi que j era to tarde - desculpou-se o conde.
- Vamos, Gina, precisamos voltar.
Ele deixou a galeria e Gina seguiu-o. Ao passar pela sra. Denver, esta
fez uma mesura e olhou para ele com uma expresso difcil de ser
traduzida em palavras. Porm, ao fitar Gina, o belo rosto da governanta
se contorceu de repente, revelando a fria e o cime que a corroa.
com o corao batendo intempestivamente, Gina apressou-se e ficou ao lado
do conde, repetindo a si mesma que aquela megera
no teria poderes para destru-la, como tentara fazer com Alice,
por isso no havia o que temer.
No hall, Newman comunicou a Druro que seus convidados se
encontravam na sala de estar, para onde o conde se dirigiu, enquanto Gina
subia a escada depressa.
A caminho de seu quarto, fez uma pequena repreenso a si msma, dizendo
que no passava de simples acompanhante da pupila
do conde e devia conhecer seu lugar. Ento a figura da sra. Denver
delineou-se em sua mente, e um calafrio percorreu-lhe o corpo.
Foi com alvio que viu a nanny esperando-a no quarto.
- A criada de lady Alice pediu-me que fosse escolher um vestido para
voc usar esta noite.
Gina tentou apagar da memria a expresso que vira no rosto
da sra. Denver.
- O conde permitiu que lady Alice me emprestasse algumas roups,
mas... sinto-me um pouco embaraada.
- No h motivo para isso! - respondeu a ama com firmeza.
- Ainda h pouco sua criada de quarto estava dizendo que lady Alice 
outra pessoa desde que voc chegou.
-  verdade - Gina sorriu.
- Todos os criados achavam que ela iria morrer dentro de pouco tempo,
e acreditam que o que voc fez com ela foi um milagre.
Gina deu um suspiro.
- Tenho certeza de que papai e mame me ajudaram. Ainda no contei nada
ao conde sobre a sra. Denver, embora ele tenha
se mostrado curioso sobre o que aconteceu.
- Talvez voc esteja certa em querer manter segredo sobre o assunto por
mais tempo. Mas creio que a melhor coisa que Sua Senhoria pode fazer 
mandar essa mulher fazer as malas e desaparecer! Ela  uma bruxa!
A nanny falava com tanta veemncia que Gina disse, em tom
de brincadeira:
- Ento vamos esperar que ela saia voando em sua vassoura e nunca mais
tenhamos o desprazer de v-la por perto!
A nanny ficou resmungando baixinho enquanto ajudava Gina a se despir.
Esta, no entanto, imaginava como tudo seria perfeito
em Ingle Priory sem a presena da sra. Denver. 
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Deitando-se para repousar um pouco, fechou os olhos, pensando no conde.
Queria estar em sua melhor forma aquela noite, uma vez que iria competir
com as beldades vindas de Londres.
No mesmo instante estranhou esse pensamento. Se a questo era competir,
por quem faria isso?
O jantar festivo do conde foi exatamente como Gina esperava. Os pratos
servidos no podiam ser mais deliciosos e requintados, e os convidados 
mesa, no grande salo de jantar, formavam um quadro magnfico que ela
manteria sempre na memria. Entre todos aqueles amigos do conde, to
elegantes, e aquelas mulheres lindas e sedutoras, era como se ela vivesse
entre as personagens de um conto de fadas.
Sentado  cabeceira da mesa, na cadeira entalhada encimada por seu
braso, mais parecida com um trono, o conde no poderia estar mais belo e
majestoso. Lady Myrtle, ao seu lado, era um sonho cor-de-rosa. Mas no se
podia compar-la a uma rosa, por estar to adornada de jias que
resplandecia ao menor movimento que fizesse.
O mesmo se podia dizer das outras ladies, que pareciam competir entre si
no brilho de suas tiaras, seus colares, braceletes, broches e brincos.
Os cavalheiros, em seus trajes a rigor, pretos, e suas camisas brancas,
engomadas, formavam um perfeito pano de fundo para aquele caleidoscpio
de cores.
Atenta, com os olhos muito abertos, Gina observava tudo, como se fosse
uma criana assistindo a uma pantomima. No entanto, nem se dera conta de
que o conde estivera observando-a, bem como a Alice, desde que ambas
haviam entrado na sala de estar, antes de o jantar ser servido.
Usando vestidos brancos, Alice e Gina tinham  cabea grinaldas de
flores. Nos cabelos escuros de Alice sobressaam orqudeas brancas, e
pequeninos lrios circundavam os cachos de Gina, puxados para trs da
cabea.
- Voc est linda, querida! - havia exclamado a nanny ao terminar de
Vestir Gina. - As flores que o conde mandou especialmente para voc
fazem-na parecer parte de um jardim!
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Foi o conde quem as mandou? - Gina perguntara surpresa.
Quando vira as flores sobre o toucador, havia imaginado que a
anny  que as havia colhido.
- Foi Sua Senhoria quem as mandou por intermdio de seu criado de quarto,
querida.
AO saber que o conde se preocupara com ela, Gina sentira um gostoso calor
invadi-la. Jamais vira lrios to pequeninos antes, e sups que tivessem
vindo de uma das estufas.
Se a inteno do conde fora provocar a admirao da ala masculina dos
convidados, certamente teve sucesso. Fizera questo de analisar a
expresso de cada um deles ao apresentar-lhes as duas jovens, e notou o
entusiasmo que a beleza de Gina e Alice provocara.
Durante o jantar, Myrtle mostrava-se mais possessiva do que o normal. Era
evidente que o cime a aguilhoava. Druro, porm, no se preocupou com
isso. Cheio de orgulho, tinha conscincia de que as vinte pessoas
sentadas  mesa, com seus candelabros, os enfeites de ouro e a porcelana
de Svres, formavam um conjunto lindo como um quadro.
Quanto a Alice e Gina, parecendo dois lrios entre aquele buque de flores
desabrochadas, alimentavam seu senso artstico, seu amor Pelo belo.
Sentada ao lado de sir Charles Carstairs, Alice, em sua beleza
exttasiante, parecia ter-se apaixonado  primeira vista, e era bvio e o
mesmo acontecera com seu par.
O conde no deixou de pensar que sua tutelada, possuidora de tanta
beleza, por certo conquistaria o corao de algum mais imPortante do que
sir Charles quando fosse para Londres, onde seria apresentada 
sociedade. At podia ver sua av e outros parentes insistindo para que ela
se interessasse por cavalheiros da mais alta obreza.
Druro, porm, sabia que o amor era mais importante do que qualquer outra
coisa. Se Alice estava apaixonada por sir Charles, encontraria nesse amor
entusiasmo e alegria de viver. De sua parte no iria apresentar
empecilhos ao amor de ambos, tampouco voltaria a pensar em t-la como
esposa. No queria v-la novamente aPtica como estivera logo depois de
chegar a Ingle Priory.
99
Olhando para Gina, o conde viu-a conversando muito interessada com um
poltico de inteligncia brilhante, mas ainda jove para quem todos
previam uma carreira promissora, que poderia lev-lo ao cargo de primeiro-
ministro.
O conde havia includo esse poltico entre seus hspedes, no s por ele
ser excelente cavaleiro, mas tambm por estar apaixonado por uma de
suas convidadas, uma linda lady cujo marido havia convenientemente ido
para Paris.
Terminado o jantar, as senhoras se dirigiram para a sala de es tar, e
lady Myrtle aproximou-se de Gina.
- Estive pensando, srta. Borne, por que nunca nos vimos an tes e tambm
por que estaria aqui em Ingle Priory, o que  sempre um privilgio muito
especial.
- Estou aqui como acompanhante de lady Alice.
- Acompanhante?
Sem querer saber mais nada, e evidentemente surpresa, lady Myrtle se
afastou com um ar de desdm, deixando Gina com vou tade de rir. Ao mesmo
tempo, ficou sem saber se, em sua posio, devia permanecer ainda com os
convidados de Sua Senhoria ou se lhe cumpria retirar-se para seus aposentos.
Pouco depois, o conde e os outros cavalheiros vieram  sala de estar, e o
anfitrio pediu que o acompanhassem ao salo de jogo onde poderiam jogar
bridge ou bacar. Para Gina, Alice, Charles e outros dois cavalheiros mais
jovens havia outro jogo.
Os cavalheiros quiseram fazer apostas entre si, e o jogo decorreu num
clima alegre e descontrado. Todos riram muito, fazendo brincadeiras uns
com os outros o tempo todo.
Ao se aproximar da meia-noite o conde pediu aos hspedes:
- Vamos dormir mais cedo, porque no desejo ver os participantes da
steeplzchase carem logo no primeiro obstculo! Quero v-los em sua
melhor forma!
Todos riram. Sir Charles foi o primeiro a dizer boa noite. Alice e Gina
subiram em seguida, de mos dadas.
Surpresas, elas constataram que, pela primeira vez, o remdio de Alice no
estava ao lado da cama.
- Ela deve ter desistido! - opinou Gina.
100
- Assim espero. A menos que a megera tenha colocado uma jiboia debaixo da
cama ou envenenado minha escova de dentes!
 - Pois eu poderia at apostar
que ela j percebeu que voc e sir charles esto apaixonados um pelo
outro.
Alice riu.
- Tem razo, Gina! Minha criada comentou que entre os serviais todos
falam de ns. Posso imaginar o que dizem!
- Bem, agora v para a cama e durma tranquila. Mas tranque
a porta!
Lampejou pela mente de Gina que, como Alice j havia dito, a sra. Denver
poderia entrar no quarto e tentar sufoc-la com o
travesseiro. Assim que a criada veio ajudar Alice a se trocar, Gina
deixou
o aposento.
Vendo a nanny ainda acordada, repreendeu-a, dizendo que de forma alguma
devia ficar de p at to tarde.
- Mas como voc conseguir se despir sozinha, querida?
- Ora, nanny, fao isso h cinco anos. Se eu podia tirar a roupa sozinha
em casa, por que no posso fazer o mesmo aqui? argumentou, j
desabotoando o vestido e indo depois pendur-lo
no guarda-roupa.
Ansiosa para ver chegar logo o dia seguinte, quando teria a oportunidade
de assistir  steeplechase, Gina foi depressa trancar a porta, apagou a
vela e entrou sob as cobertas.
Depois daquele dia to excitante, adormeceu mal sua cabea tocou no
travesseiro.
Gina sonhava que estava cavalgando com o conde, porm subitamente algo a
perturbou. Acordando em seguida, sups ter ouvido um fantasma. J bem
desperta, viu um vulto ao lado da cama e ao olhar para cima, emitiu um
som de espanto que foi imediatamente sufocado por algo que lhe cobriu a
boca.
Tentou lutar, mas viu-se amordaada, e algum lhe puxou as mos para
trs, amarrando-lhe os pulsos com uma corda. Quando tentou dar chutes,
viu que lhe amarravam os tornozelos tambm. Nada podia fazer para
libertar-se.
101
Ao ver-se carregada, deu-se conta de que aquele vulto que vislumbrara
era a sra. Denver.
Percebendo que a megera atravessava o quarto carregando-a, Gina sups que
iria ser atirada pela janela, como represlia, depois de a governanta
ter descoberto o que fora feito com o medicamento que ela preparava para
lady Alice.
Porm, para sua surpresa, Gina viu a sra. Denver passar com alguma
dificuldade por uma abertura e entrar num lugar muito escuro.
Horrorizada, constatou que havia uma porta secreta nos painis da parede.
Infelizmente, estivera to entretida com as maravilhas de Ingle Priory
que at esquecera que nas casas ancestrais costumava haver passagens e
escadas secretas e esconderijos. Um calafrio de terror percorreu-lhe a
espinha ao perceber que ia ser abandonada naquele cmodo, em completa
escurido. Ao ser largada no cho, sentiu atravs do tecido fino da
camisola que o piso era de madeira.
Foi ento que a sra. Denver falou pela primeira vez, numa voz sibilada,
pouco mais que um sussurro:
- Voc ficar aqui! E aqui apodrecer! Ningum vir procurla, e, se
pensa que ele ir lembrar-se de voc, est muito enganada. Ser esquecida
como tantas outras antes de voc!
Antes de Gina tentar mover os lbios, a megera havia partido. Seus passos
mal foram ouvidos, porque ou ela usava chinelos macios ou estava
descala. Seguindo pelo caminho por onde viera, a sra. Denver pressionou
um dispositivo, e a abertura no painel de carvalho se fechou, enquanto o
silncio voltava a reinar.
Tudo o que Gina queria fazer era gritar, gritar muito forte, porm a
mordaa a impedia de emitir sons claros e altos. Desesperada, sups que
morreria ali, uma vez que ningum, desde que viera para Ingle, havia
mencionado passagens secretas. Se os empregados soubessem delas, teriam
feito algum comentrio com a nanny. E  ela havia sugerido a lady Alice que
trancasse a porta, sem suspeitar que haveria outros meios de entrar no
aposento! Quanto aos fantasmas, estes tambm eram criao da sra. Denver,
sem dvida. Ela se valia desse artifcio para assustar qualquer lady em
quem o conde estivesse interessado. Fora o que havia acontecido com a
dama da histria contada por Rose.
102
Ento surgira lady Alice, com quem o conde provavelmente se casaria e
cuja morte por pouco no ocorrera. Em seu cime doentio, a sra. Denver
suspeitara de Gina, e agora planejava mat-la. Nesse instante veio-lhe 
mente a expresso terrvel da governanta ao v-la com Sua Senhoria na
galeria de quadros.
"Por que no percebi a tempo o que essa louca preparava para mim? "
Tal pensamento pareceu-lhe to absurdo e forado, e, todavia, era a
realidade.
A figura do conde, sentado majestosamente  cabeceira da mesa, mais
parecido com um rei, surgiu-lhe na lembrana; tambm recordou o brilho de
seus olhos e o tom alegre de sua voz ao expressar-lhe sua gratido pelo
que fizera por Alice.
"Amo-o!", admitiu afinal. "Amo-o, claro que sim! Como poderia ser de
outra forma, sendo Druro o homem mais maravilhoso que jamais sonhei
conhecer? "
Desesperada, soube que seu amor nunca seria declarado e que o homem que
amava no saberia que ela morrera daquele modo absurdo, no maior
desconforto, cada sobre o assoalho do que devia ser um antigo
esconderijo de religiosos perseguidos.
No passado, em tais cmodos, monges e padres no s se escondiam, mas
tambm celebravam o ofcio religioso para aqueles que, como eles, eram
vtimas de perseguio. Talvez tivesse sido naquele lugar santificado que
um dos condes de Ingleton, por ser monarquista, se escondera das tropas
de Cromwell.
Teria sido ele parecido com Druro? Estaria amando algum?, imaginou Gina.
Ento uma sbita e extraordinria vontade de viver f-la reagir. Comeou
a orar com f:
"Salve-me, meu Deus... Oh, Senhor, salve-me! Mame, ajudeme tambm a sair
deste lugar. Como poderei morrer desta maneira estpida... sem ningum ao
menos saber o que me aconteceu? "
Suas oraes prosseguiram com a mesma intensidade, com o mesmo desvario,
entre lgrimas de desespero. Todavia, consciente de que o choro, em vez
de ajudar, s a sufocava, e de que no tinha como assoar o nariz, tentou
controlar-se.
Sentiu nesse instante que no se achava sozinha. Recebia amparo e alento,
no de um ser humano, mas talvez de um padre que
103
j estivera ali, deixando a santidade de suas oraes impregnada naquele
ambiente. Ou quem sabe a ajuda viesse das preces dos monges que haviam
sido os idealizadores e construtores daquelas passagens secretas e dos
esconderijos, sabendo que seu trabalho salvaria a vida dos que, como eles
prprios, trabalhavam para a glria de Deus.
Gina podia perceber a presena dos espritos do passado, porm no teve
medo e sentiu-se confortada por no estar sozinha.
"Ouam-me", implorou-lhes. "Ajudem-me, indo dizer ao conde que me
encontro aqui. "
Subitamente ocorreu-lhe que o conde devia ter conhecimento daquelas
passagens secretas e dos esconderijos. Sem dvida haveria uma planta da
casa onde eles eram mencionados. Essa planta passava de pai para filho, e
no devia ser conhecida por estranhos, para no haver o perigo de estes
se valerem dos esconderijos em benefcio prprio.
Foi como se Gina recebesse dos espritos orientao sobre o que fazer.
Concentrando-se, enviou seus pensamentos para Druro, avisando-o do perigo
em que se encontrava e pedindo-lhe socorro.
"Salve-me... Venha me socorrer... Leia meus pensamentos como posso ler os
seus. Oua-me agora! Quero voc! Preciso de voc... Por favor, pense em
mim! "
Lembrando-se de que quela hora todos estariam dormindo, imaginou que
certamente o conde estaria com lady Myrtle, beijando-a e falando-lhe do
seu amor, e por isso no ouviria seu apelo. O desespero invadiu-a por um
momento, deixando-a desalentada.
Entretanto, logo reagiu. Sabia que precisava ter f. Devia acreditar que
o bem venceria.
" isso mesmo! Tentarei fazer Druro entender o que aconteceu. "
Suas oraes continuaram com uma f inabalvel que parecia vir de cada
nervo de seu corpo:
"Salve-me... Venha socorrer-me. Quero voc... Preciso de voc... "

CAPTULO VII

O conde decidiu no passar aquela noite com Myrtle. Ao pedir a todos que
se recolhessem cedo, tivera de fato a inteno de fazer os cavalheiros
repousarem o suficiente para se encontrarem em sua melhor forma para a
corrida de obstculos. No ignorava que beber at tarde e a seguir
dedicar-se a uma noite de prazer prejudicaria o desempenho de todos na
corrida.
Druro deu boa noite a cada uma das ladies, que comearam a subir para
seus aposentos. Myrtle, porm, ficou para trs, esperando ficar a ss com
o amante.
- Boa noite, Myrtle - ele despediu-se, sentindo ao segurarlhe a mo um
forte aperto. - Estamos todos cansados esta noite, porm amanh tudo ser
diferente - desculpou-se, compreendendo o que Myrtle desejava.
Ela o fitou, desapontada e raivosa. Determinado, Druro disse a si mesmo
que no faria o que no se sentia disposto a fazer.
Em seu quarto, surpreendeu-se pensando em como as duas "deusas" haviam
estado sensacionais naquela noite. Todos os cavalheiros tinham sido
prdigos em elogios a sua encantadora tutelada, e referiam-se a Gina como
a jovem mais linda que j haviam conhecido.
"Pelo menos meus amigos tero sobre o que falar", pensou, satisfeito,
enquanto se vestia.
Decidiu ir at a janela, onde permaneceu por algum tempo, admirando o
luar e sentindo que a beleza da noite despertava seu romantismo. Uma
sbita sensao de desconforto e inquietao o invadiu ao lembrar-se de
lady Myrtle.
Quase com raiva, arrependeu-se de t-la convidado para vir a Ingle
Priory, uma vez que tinha em casa duas jovens puras e inocentes
105
como Alice e Gina. Alm disso, j se havia cansado do modo
possessivo e exigente da amante.
Alm de lady Myrtle, havia outras beldades entre seus hspedes, todas
elas mulheres experientes e sofisticadas. Cada uma mantinha seu affaire
de coeur com um dos cavalheiros do grupo. Portanto, o anfitrio tivera o
maior cuidado ao distribuir os quartos, deixando os pares to perto um do
outro quanto possvel.
S esperava que todos soubessem apreciar a atmosfera de romance que
parecia encher Ingle Priory. No mesmo instante achou que seu
comportamento estava muito estranho e que devia parar de ficar pensando
em tolices. Fazer amor era uma coisa; cavalgar era outra, e, como tinha a
mais firme inteno de vencer a steeplechase que ele prprio organizara,
foi para a cama e adormeceu em seguida.
Pouco tempo depois acordou, sobressaltado, sem saber por qu, uma vez que
reinava completo silncio no quarto iluminado parcamente pela luz
prateada e suave do luar que se infiltrava pelos lados da cortina.
Viu-se pensando em Gina; via-lhe o rosto delicado em forma de corao e
os grandes olhos azuis nos quais o medo estava impresso. Intrigado,
comeou a imaginar o que a estaria perturbando. Teria alguma coisa a ver
com o que ela e Alice estavam escondendo dele?
Veio-lhe quase nitidamente ao pensamento a figura de Gina, porm, era
como se a visse em seu prprio quarto, no escuro e chamando por ele.
"Devo estar ficando louco!", disse a si mesmo, fechando os olhos e
tentando conciliar o sono novamente.
Porm continuou desperto e com a mesma sensao de que Gina estivesse no
quarto, agora chamando por ele num tom splice. Havia tanta insistncia
em sua voz que Druro sentou-se finalmente na cama.
Embora tivesse certeza de que bebera muito pouco durante o jantar,
justamente por causa da steeplechase, teve de admitir que estava tendo
alucinaes, e s podia atribuir esse fenmeno ao clarete que havia
tomado.
Mas sua intuio lhe disse que era perda de tempo querer arranjar desculpas
ou explicaes para o que estava acontecendo. A verdade era que Gina
precisava dele com urgncia. Saiu depressa da janela, mesmo reconhecendo
que suas apreenses deviam ser ridculas.
Quando ia vestir o robe que o criado de quarto deixara sobre uma cadeira,
achou melhor ir ao guarda-roupa e pegar calas escuras. Apanhou a
primeira camisa que encontrou, vestiu-a e amarrou um leno ao pescoo.
Por fim calou chinelos fechados de
veludo.
Na tentativa de justificar sua apreenso, disse a si mesmo que Gina
poderia ter sofrido algum acidente; quem sabe tivesse ido s cocheiras
ver os cavalos, ou tivesse sado para dar um passeio no jardim,
constatando ao voltar que a haviam deixado trancada do
lado de fora.
O que quer que tivesse acontecido, teria de encontr-la. Ao sair do
quarto, notou que havia pouca claridade no corredor, suficiente porm
para indicar-lhe o caminho.
Ao ver-se diante da porta do quarto de Gina, o conde sups que ela
estaria trancada, indicando que tudo estava bem e que ele fazia papel de
bobo.
Ao segurar a maaneta, teve a impresso de ouvir Gina chamando-o
novamente no mesmo tom splice de momentos antes. Sem fazer barulho,
abriu a porta e, notando a escurido do aposento, foi pegar uma vela j
quase consumida na arandela mais
prxima.
Entrou no quarto e viu a cama vazia, porm toda revirada; o lenol de
cima estava cado no cho. Perplexo, ficou imaginando o que teria
acontecido. Ao acender as velas do candelabro que se achava sobre o
criado-mudo, pensou que descobrira o que se passara: aquele quarto era
conhecido como mal-assombrado, e, se um fantasma tivesse assustado Gina,
ela por certo teria ido correndo Para o quarto de Alice.
Afinal, fora o que acontecera com lady Belton, por quem estivera
apaixonado durante algum tempo. Ela ouvira os fantasmas e sara correndo
daquele quarto, gritando histericamente que a salvassem.
107
"Certamente a histria se repetiu", ele pensou, apesar de
no acreditar em fantasmas.
Deixou as velas do candelabro acesas e pegou apenas uma delas  para ir ao
quarto de Alice, no muito longe do seu. Bateu de leve para no fazer
muito barulho quela hora tardia. No houve resposta. Bateu novamente.
Desta vez ouviu um movimento no interior do aposento, e um segundo depois
a porta se abriu.
- O que houve, Gina?
No mesmo instante, Alice viu de quem se tratava e perguntou:
- Oh, primo Druro, o que aconteceu?
- Gina est com voc? - O conde entrou no quarto ao fazer a pergunta,
para no ser ouvido nos quartos vizinhos.
- No, ela no est aqui! - Alice mostrou-se assustada. Mas por qu? Por
que voc a procura?
- Ela no se encontra em seu quarto, portanto deduzi que tivesse vindo
para c!
- No... - Alice comeou, dando em seguida um grito de horror. - Se ela
no est, ento aconteceu-lhe alguma coisa! Deve ter sido a sra. Denver!
Oh, Druro, salve-a, salve-a, depressa!
O conde fitou Alice, completamente espantado.
- O que est dizendo?
- A sra. Denver estava tentando me matar e...
- Matar voc? De que est falando? - Ele acendeu uma das velas ao lado da
cama de Alice e colocou a que segurava sobre o criado-mudo. - Que tolice
 essa?
- No  tolice! A sra. Denver me dava ludano, pelo meno Gina sups que
aquele remdio fosse ludano. Eu tomava a droga duas vezes por dia, e
por esse motivo vivia sonolenta e no conseguia comer quase nada. Esta
noite, o remdio no estava ao lado de minha cama, um sinal de que a sra.
Denver j sabia que Gina havia me salvado.
O conde apenas ficou olhando para ela com uma expresso de
incredulidade, sem saber o que dizer.
- Voc levou Gina em sua carruagem; pode ter certeza de que isso foi
bastante para a megera suspeitar que... voc est interessado nela.
- Devo ser muito obtuso, pois no consigo entender por que voc suspeita
que a sra. Denver seja capaz de fazer algo to inopinvel.
 - Ela est  apaixonada por voc! J devia ter notado isso!
- Ter notado? Mal olho para essa mulher! S sei que  uma
governanta eficiente.
- Ela o ama! Na minha opinio, ela enlouqueceu, e por isso tentou me
matar! - Desesperada, Alice exclamou: - Voc tem de salvar Gina! Tem de
salv-la! Talvez ela tenha sido afogada no
lago... Alice levou a mo  cabea e continuou a falar, sem dar chances
a Druro.
- Gina disse que esta noite eu estaria segura desde que trancasse a
porta... pois neste quarto no h nenhuma passagem secreta, e a sra.
Denver no poderia entrar aqui.
O conde encarou Alice, mal podendo acreditar no que ouvira. Em seguida,
com a rapidez que o havia tornado um excelente soldado, virou-se e voltou
depressa para o quarto de Gina.
Alice pegou o nglig, jogou-o sobre os ombros e seguiu o primo. Ao
chegar ao quarto da amiga, viu Druro examinar o painel de madeira que
revestia a parede, correndo os dedos por entre os entalhes para descobrir
o mecanismo que fazia uma das partes deslizar e deixar ver uma escada
secreta.
- No consigo me lembrar onde ela abre - disse baixinho.
- Deve ser naquela outra parede - Alice sugeriu, indicando um ponto
atrs do toucador.
O conde ficou pensativo.
- , acho que tem razo.
Tentava lembrar onde ficava a entrada para um dos esconderijos. Em
criana, costumava brincar nas passagens secretas e nos
cmodos abaixo do piso onde os religiosos perseguidos se escondiam.
Quantas vezes se escondera e surgia de repente, num salto,
diante de um criado, fingindo ser um fantasma... Seu pai ficara muito
zangado certa vez, e a partir de ento fizera-o prometer parar com tais
brincadeiras de mau gosto. Tambm o
Avisara para jamais revelar a pessoa alguma o segredo das passagens
109
 que existiam na parte antiga da casa. S poderia passar segredo ao
seu filho mais velho.
Ao fazer a advertncia, o pai lhe explicara que os esconderijos poderiam
ser usados por ladres ou pessoas inescrupulosas que estando escondidos,
acabariam descobrindo coisas de natureza confidencial.
Ao herdar o ttulo, o conde proibira que seus empregados sequer falassem
em passagens secretas ou esconderijos, e jamais suspeitara que sua
ordem no estivesse sendo cumprida.
E agora, ali estava ele tentando descobrir um dispositivo em cada entalhe
dos painis. Alice o observava, mal podendo respirar, dada sua ansiedade
e receio de que as tentativas do primo se provassem inteis.
Subitamente ouviu-se um estalido, e um dos painis abriu-se de repente.
- Conseguiu! - Alice exclamou aliviada.
Druro foi at o criado-mudo, pegou uma das velas que havia deixado acesas
e foi para a passagem. Antes de comear a descer os degraus, pediu a
Alice:
- Espere aqui. Este lugar deve estar muito sujo, e pode ser perigoso
andar ali dentro se voc no conhecer bem o caminho.
Alice no discutiu. Sentou-se na beirada da cama enquanto acom panhava a
descida do conde pela escadinha, protegendo a chama da vela com a mo.
A primeira coisa que ele viu foi um grande pedao de musselina branca
sobre um cabo de vassoura encostado  parede. No cho havia correntes e
uma luva branca, recheada de algodo, para dar a impresso de ser a mo
de uma pessoa.
Ele no se deteve. com os lbios comprimidos, continuou caminhando por
uma passagem estreita, cuja construo datava de sculos atrs, quando se
erguera o mosteiro. Apesar de passados tantos anos, nada se mostrava
arruinado.
Surgiram mais degraus, que ele desceu com cuidado. Andou mais alguns
metros por outra passagem. Subitamente lembrou-se de que pouco mais 
frente havia um grande cmodo, usado em tempos passados para esconder
religiosos e outras pessoas perseguidas.
O aposento era capaz de abrigar os religiosos, mas tambm muitos
 fiis. Se a memria no o traa, achava que ainda devia haver um
crucifixo pregado  parede, acima de uma mesa que fazia as
vezes de altar.
Seguindo sempre devagar para que a vela no se apagasse, o conde entrou
no cmodo que abrigara outrora os religiosos.
Gina havia rezado at sentir que seu angustiado apelo para Druro vir
socorr-la fora captado. Mesmo que estivesse dormindo ou o que quer que
estivesse fazendo, seria impossvel no lhe ouvir as
splicas.
Druro era um homem perceptivo, e j demonstrara mais de uma vez que podia
ler seus pensamentos, ao mesmo tempo que ela lia os dele. Gina s agora
compreendia que era muito grande a afinidade entre ambos. Nas poucas
vezes que haviam estado juntos, havia notado que o conde parecia
apreender, mesmo por meias palavras, exatamente o que ela quisera dizer.
De sua parte, Gina tambm era capaz de apreender o que Druro
queria lhe transmitir e que
estava alm do mero sentido das palavras,
 mas residia na comunho perfeita de suas almas.
Entretanto, no o via apenas como um homem atraente. Achava interessante
tudo o que ele dizia e o considerava to majestoso quanto sua casa. Via-o
como parte dessa relquia do passado, com seus quadros de valor
inestimvel e suas cocheiras repletas de animais magnficos; parte da
beleza do jardim, do parque e das estrelas que havia visto de sua janela.
Durante o tempo em que fizera suas oraes e enviara ao conde os apelos,
colocara neles todo o seu desespero e todo o seu corao. Era como se
tivesse Druro diante de si. S ele lhe importava, ele bastava para encher
o mundo todo, e nesse mundo nada mais tinha significado a no ser a
segurana e a proteo que ao lado dele encontraria. ""Socorro! Venha
salvar-me!", Gina repetia mentalmente, Nesse instante ouviu passos e
susteve a respirao. Talvez a sra. Denver tivesse voltado para mat-la. 
verdade que a megera havia dito que iria deix-la ali at apodrecer, porm
era possvel que tivesse mudado de ideia. Quem sabe em sua loucura a
governanta
111
estivesse decidida a no correr o risco de ver sua vtima escapar e
tivesse voltado para assassin-la.
Os passos estavam agora bem prximos, e como faziam pouco barulho Gina
teve certeza de que a sra. Denver voltara. No entanto, viu uma luz, e
lembrou-se de que a megera no carregara vela alguma ou lanterna.
Certamente por estar familiarizada demais com aquele caminho, no
tropeava, mesmo na escurido.
Quem quer que estivesse se aproximando parou, e Gina fechou os olhos,
paralisada pelo terror. Chegara o momento de uma faca ou um punhal
penetrar em seu corao.
Ento ouviu uma voz exclamar:
- Oh, meu Deus!
Abrindo os olhos, viu o rosto do conde iluminado pela luz da vela. Foi
to grande sua felicidade por ele ter vindo socorr-la, atendendo aos
seus apelos, que queria gritar, porm a mordaa no lhe permitia faz-lo.
Ali,  luz da vela, Druro pareceu-lhe o arcanjo So Miguel, vindo das
alturas para salv-la. Ele colocou a vela no cho, sob o crucifixo, e
ajoelhou-se para desamarrar Gina. O n da mordaa estava to apertado que
ele imaginou o quanto a pobre moa devia estar sofrendo.
Assim que pde mover os lbios, Gina murmurou, em voz rouca:
- Voc me ouviu! Rezei tanto para que pudesse me ouvir!
- Eu a ouvi!
Gina estranhou que o conde dissesse to pouco. No havia percebido como
ele emudecera ao constatar que havia sido uma tortura para a pobrezinha
ter sido jogada naquele lugar escuro, frio e mido, apenas de camisola,
fortemente amarrada e amordaada.
Finalmente, Druro conseguiu desamarrar os pulsos de Gina, j adormecidos
pela falta de circulao. Ela tentou mover-se, porm deu um grito de dor.
Sentando-se no cho ele abraou-a, dizendo carinhosamente:
- Est tudo bem. A circulao logo se normalizar. Tem certeza de que
aquele demnio no a machucou, alm de amarr-la?
com dificuldade e no mesmo estranho tom rouco, ela murmurou:
112
- Se voc veio foi porque ouviu meu pedido de socorro e sabia que eu
estava com muito medo!
- Ouvi-a claramente, e juro que isso que lhe aconteceu jamais se
repetir.
- Ela me disse que me deixaria aqui... apodrecendo!
As lgrimas que reprimira corajosamente agora lhe rolavam pelo rosto.
Gina virou-se e encostou a cabea no ombro de Druro, que a apertou
carinhosamente nos braos, mantendo-a bem junto de si.
- Est tudo bem. Foi Alice quem adivinhou o que teria acontecido. Agora
vou lev-la daqui.
Ao deix-la para ir desamarrar-lhe os tornozelos, vendo que Gina no
parava de chorar, ergueu-a do cho e carregou-a nos braos, enquanto seu
corao batia furiosamente no peito. Seguiu pela passagem cuidadosamente,
para evitar que ela batesse a cabea ou os ps nas paredes laterais.
Mantendo-a sempre bem segura nos braos, Druro disse a si mesmo que fora
um milagre t-la encontrado. Ele poderia ter esquecido por completo as
passagens secretas, e era com isso que a sra. Denver certamente contava,
at que fosse tarde demais.
Ao ver o primo entrar pelo painel aberto, Alice ps-se de p num salto e
deu um grito de alegria.
- Voc a encontrou! Oh, Druro, conseguiu encontr-la!
- Sim, encontrei-a. - Havia no rosto dele uma expresso severa. -
Desamarre os tornozelos dela enquanto vou buscar a vela.
Ele colocou Gina delicadamente na cama e permaneceu alguns minutos ao
lado dela, sentado na cama, fitando-a com ternura, mas deixando-a chorar
 vontade. Nem notou que sua camisa ficara molhada pelas lgrimas.
Ela ergueu a cabea e ambos ficaram apenas se olhando. Mesmo com o rosto
molhado de lgrimas, Gina estava linda. Na verdade, mulher alguma poderia
ter aparncia mais adorvel.
- Vou buscar a vela - disse Alice, desaparecendo pelo painel aberto antes
que Druro pudesse impedi-la.
Descendo os degraus e seguindo pela passagem, viu os utenslios usados
pela sra. Denver para assustar as pessoas que dormiam naquele quarto,
simulando rudos e aparies fantasmagricos. Ento
113
viu que Gina estava certa ao imaginar que os fantasmas eram falsos,
no passando de simulaes da sra. Denver.
Guiada facilmente pela luz da vela, Alice alcanou o cmodo onde Gina
havia sido deixada. Horrorizada, lembrou que aquele lugar poderia ter-se
tornado facilmente o tmulo da amiga.
com um estremecimento, pegou a vela e voltou depressa para o quarto.
Os tornozelos de Gina j estavam livres, e o conde os massageava
delicadamente para trazer a circulao de volta.
Ao colocar a vela no candelabro do criado-mudo, Alice observou:
- Gina no pode ficar aqui.
- No, claro que no - Druro concordou.
- Acho melhor ela ir dormir comigo - Alice sugeriu. - Pelo menos ser
mais difcil a sra. Denver encontr-la ali. No confio nessa mulher. Se
ela descobrir que Gina no se encontra mais no lugar onde a deixou, sendo
to m, por certo cuidar de assassin-la.
Havia raiva nos olhos do conde ao dizer, indignado:
- No posso acreditar que isto esteja acontecendo em minha casa! Mas voc
tem razo, Alice, portanto teremos de ser cuidadosos. Vocs duas dormiro
em meu quarto, e eu irei para o de Alice.
Sem esperar que sua tutelada concordasse, pegou Gina nos braos. Ela
passou a mo no rosto para enxugar as lgrimas e encostou a cabea em seu
ombro, como se fosse uma criana necessitada de proteo.
- Feche o painel, apague as velas e encoste a porta ao sairmos
- ele pediu a Alice.
Esta obedeceu depressa, enquanto o primo j ia para o corredor com Gina
no colo. Sentindo o calor do corpo dela contra o seu, Druro teve
conscincia de que tudo o que desejava era proteg-la, cuidar dela e
mant-la em segurana para sempre, coisas que jamais pensara fazer por
mulher alguma.
Estava certo de que Gina, apesar de se manter calada, estava feliz ao
lado dele.
Ao chegar ao prprio quarto, Druro foi obrigado a admitir que nunca se
sentira to feliz. Na realidade, estava completamente apaixonado.
No era apenas a beleza de Gina que o encantava. Sentia vir dela uma
fora, um alento de vida, um entusiasmo que chegava at ele em vibraes,
tornando-o ligado a ela como se ambos fossem uma s pessoa.
Parado diante do leito, com a jovem ainda nos braos, tinha a cabea
confusa pelas tumultuadas emoes. No compreendia aquele sentimento
novo, e chegou a tentar convencer-se de que nada do que acontecera na
ltima meia hora era real.
Ao colocar Gina no grande leito de quatro colunas, onde todos os condes
de Ingleton haviam dormido, teve a sbita certeza de que ela era a mulher
com quem desejava partilhar sua vida e de que no a deixaria escapar.
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Por um momento, ainda segurou-a, mantendo-a apertada junto ao peito.
Gina ergueu a cabea e sorriu para ele, que pde ver  luz das velas
como os olhos dela brilhavam. Inclinando-se, beijoua ternamente.
Foi um beijo suave, seus lbios apenas tocaram os dela. No entanto, Gina
sentiu como se todas as estrelas do cu lhe tivessem enchido o corpo de
luz.
Druro f-la deitar-se e cobriu-a. S ento notou a presena de Alice.
- Aqui estaremos seguras, primo Druro. Mas tenha cuidado, pois a sra.
Denver poder atac-lo por engano!
-  bem mais provvel que eu a ataque! - replicou ele em tom raivoso. -
Por que vocs duas no me contaram o que estava acontecendo?
- Era o que queramos fazer, mas Gina receou que voc a considerasse uma
intrigante e criadora de problemas, e pensasse at em despedi-la.
- Vocs acham mesmo que a sra. Denver se valia de doses excessivas de
ludano para deix-la doente, Alice? - Havia uma nota de incredulidade na
voz do conde.
- Tenho certeza disso. A partir do momento em que Gina comeou
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a jogar pela janela a droga preparada para eu tomar, passei a
melhorar, e em pouco tempo voltei a ser o que era antes. O conde respirou
fundo.
- Bem, v dormir e cuide bem de Gina. Conversaremos pela manh.
Sem que ele esperasse, Alice beijou-o no rosto.
- Voc foi maravilhoso, Druro! Seria intolervel se acontecesse algo 
querida Gina.
- Tambm acho - respondeu o conde com veemncia. Tranque a porta assim
que eu sair, e no deixe ningum entrar at eu vir acord-las pela manh.
Alice obedeceu e foi para a cama em seguida. Tirou o nglig e deitou-se
ao lado de Gina.
- No me cansarei de agradecer a Deus por Druro ter conseguido encontrar
voc. Pela manh quero que me conte como a megera foi capaz de amarr-la
sozinha.
Imediatamente Alice deu-se conta de que Gina j havia sofrido demais e
seria melhor no aborrec-la. Ento disse:
- O primo Druro tem razo. Vamos dormir. Boa noite, querida. Sei que isto
nunca mais vai acontecer novamente.
O conde voltou para o quarto de Alice achando que era improvvel que a
sra. Denver estivesse disposta a fazer mais do que j fizera. Mesmo
assim, no estava disposto a correr riscos. Trancou a porta e deitou-se.
Acordou s seis horas, uma hora antes do horrio costumeiro de seu criado
de quarto vir despert-lo. Vestindo-se rapidamente, foi ao prprio quarto
acordar Alice e Gina.
Assim que ele bateu de leve, Alice veio abrir.
- Gina est dormindo - ela sussurrou. - Acha que devemos acord-la?
- Receio que sim. No devemos deixar que saibam que vocs dormiram em meu
quarto.
Compreendendo que Druro tinha razo, Alice sugeriu:
- Voc poderia carreg-la para meu quarto, e Gina continuar dormindo at
a hora do desjejum. Para evitarmos falar sobre
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o que aconteceu durante a noite, ns duas daremos a desculpa de que ela
teve medo dos fantasmas e correu para o meu quarto. O conde sorriu.
- Voc pensou bem.  uma explicao convincente. Tambm seria um erro
algum ficar sabendo alguma coisa sobre o comportamento da sra. Denver.
- Sim. E no iremos envolv-lo!
O conde no respondeu, porm seus olhos brilharam, indicando que ele lhe
agradecia por ela compreender que as pessoas maledicentes apreciariam
muito uma histria como aquela, principalmente estando ele envolvido.
Druro tomou Gina nos braos. Era tamanho o seu cansao que ela mal se
mexeu. Aconchegou-se ao peito dele e continuou dormindo.
Alice ficou para trs, recolhendo o nglig e os chinelos. Dessa forma, o
conde chegou primeiro ao quarto dela e, ao depor Gina no leito,
percebendo que estavam a ss, beijou-lhe suavemente os lbios mais uma
vez. Imediatamente ela sentiu um estremecimento por todo o corpo, abriu
os olhos e murmurou, ainda sonolenta, ao ver o rosto de Druro:
- Amo voc!
Mal pronunciou estas palavras, fechou os olhos e continuou dormindo,
enquanto o conde a fitava com ternura e uma expresso meiga e apaixonada
no olhar que mulher alguma jamais tivera o privilgio de ver.
Nesse instante Alice entrou no quarto, e ele saiu.
Pouco depois das nove horas, Alice avisou a Gina que j havia mandado
trazer o desjejum, e esta sentou-se na cama, j bem desperta.
- Foi um sonho... ou aconteceu tudo aquilo, esta noite?
- Foi real - Alice respondeu. - Mas no vamos dizer uma palavra. Druro
no quer que ningum saiba que dormimos na cama dele esta noite.
- Ele me salvou!
O enlevo que havia em sua voz fez a amiga olhar para ela indagativamente.
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- Sim, Druro salvou-a! Estou achando, Gina, que voc est apaixonada por
meu primo.
Gina olhou para Alice, surpresa. Em seguida desviou o olhar timidamente.
- Est sim! - Alice repetiu com firmeza. - Isto  a melhor coisa que
poderia ter acontecido! Agora posso me casar com Charles, e ningum
tentar me impedir.
Em seu entusiasmo, Alice falou o tempo todo sobre Charles, enquanto
tomavam o caf da manh.
Mais tarde a nanny veio ao quarto de Alice trazendo as roupas que Gina
iria usar.
- A srta. Gina ficou muito assustada com os fantasmas ontem  noite -
Alice explicou -, mas ela no quer tocar nesse assunto.
- No me surpreende! - replicou a nanny acidamente. - Eu no me admiraria
nem um pouco se os tais fantasmas tivessem ps e mos como qualquer
pessoa!
As moas no fizeram comentrio algum, e a nanny prosseguiu:
- Bem, um desses fantasmas, sei que ela fingia ser um fantasma, j se
foi. O que sem dvida  uma bno.
- O que est dizendo, nanny? - Gina perguntou.
- Essa tal sra. Denver, srta. Gina. Fiquei sabendo esta manh, quando
estava tomando caf, que ela deixou esta casa e no voltar mais.
- Por que ela se foi? - Alice perguntou fingindo inocncia.
- O sr. Newman disse-nos que ela recebeu notcias de que algum de sua
famlia se encontrava  beira da morte. Todavia, em particular, o mordomo
segredou-me que a mulher foi chamada  presena de Sua Senhoria, e meia
hora depois j havia partido. J foi tarde, a bruxa!  o que eu digo!
A nanny mostrava-se indignada, e no reparou que a expresso de Gina e
Alice se transformara. Ento Gina exclamou, entusiasmada:
- No podemos nos atrasar para a steeplechase. A corrida comea s dez e
meia!
Uma carruagem j estava esperando  porta para levar Alice e Gina ao
ponto de partida da corrida de obstculos.
Ao chegarem, as duas viram os competidores j montados nos soberbos
cavalos do conde. Gina desejou poder tomar parte na corrida.
Alice viu sir Charles e, sem mesmo dar nenhuma explicao a Gina, abriu a
porta e correu pelo gramado, indo ao encontro dele. No mesmo instante ele
tambm a viu, cavalgou em sua direo e tirou o chapu ao se aproximar.
- bom dia, minha querida! Est to linda que nem parece real
- cumprimentou-a, inclinando-se sobre a montaria.
- Oh, Charles, tenho uma tima notcia!
- Qual ?
- Gina est apaixonada pelo primo Druro, e acho que ele tambm a ama.
Agora voc pode contar-lhe sobre ns!
Os olhos de Charles ganharam um brilho sbito, revelador de sua
felicidade.
- Tem certeza do que est dizendo?
- Sim. Pode falar com ele assim que tiver uma oportunidade. Ela estendeu
a mo a Charles, que a apertou com fora, fazendoa dar um pequeno grito.
- Desculpe-me, querida. No quis machuc-la. Quero que se torne minha
esposa, e cada dia que temos de esperar  uma agonia indescritvel.
- Para mim tambm! - Alice murmurou. - Portanto, fale com Druro... por
favor!
- Farei isso! Mas, agora que j a conquistei, nem vale a pena tomar parte
na steeplechase!
Assim que chegou, Gina viu Druro montado no magnfico garanho negro que
ele havia escolhido para participar da steeplechase. Seu corao comeou
a bater descompassadamente quando notou que ele vinha em sua direo. Ele
era sem dvida o mais elegante e o mais belo de todos aqueles
cavalheiros.
- Voc est bem? - perguntou ele em sua voz profunda. No se sente
cansada demais? Talvez fosse mais aconselhvel ter ficado na cama.
A preocupao que ele demonstrava era verdadeira. Gina fitou-o
amorosamente, e no conseguiu dizer coisa alguma.
119
- Precisamos conversar - continuou ele -, mas teremos de estar sozinhos.
Tenho tanto a lhe dizer! Agora, prometa-me que no cometer excessos.
- Est bem. Vou ficar esperando... que venha falar comigo.
Os olhos dele fixaram-se nos lbios de Gina, o que a fez relembrar o
beijo que ele lhe dera na noite anterior. Ento um sbito rubor coloriu-
lhe o rosto, o que provocou uma profunda emoo em Druro. Gina era a
mulher mais linda que ele j conhecera.
- Ora, que se dane a corrida! - disse feliz. - Quero ficar com voc!
Gina riu.
- Voc sabe que tem de ser o vencedor da steeplechase, para no
desapontar todos em Ingle Priory.
Druro achou graa e prometeu:
- Vencerei a corrida por voc!
Sabendo que devia desempenhar bem seu papel de anfitrio, dirigiu-se para
o ponto de partida, e a steeplechase teve incio. A corrida foi
emocionante. Alice acompanhava entusiasmada o desempenho de Charles, e
Gina s tinha olhos para Druro.
O cocheiro levou-as para perto do poste de chegada e as duas ficaram de
p na carruagem, para ver melhor os cavaleiros, que se haviam afastado
muito e agora vinham voltando.
- L esto eles! - Alice gritou entusiasmada.
Dois cavaleiros vinham  frente, desciam no momento uma ladeira e se
aproximavam do bosque.  medida que os cavalos avanavam, velozes, foi
possvel distinguir o conde e sir Charles.
Passado algum tempo, outros trs competidores surgiram  vista, e em
seguida mais uns seis cavaleiros. Restavam trs obstculos para serem
ultrapassados. O primeiro foi vencido por sir Charles e o conde, lado a
lado; ao saltarem o segundo, foi difcil precisar se teria havido
vantagem para um deles. S no terceiro, o cavalo montado pelo conde
adiantou-se meio corpo.
A partir da a distncia entre os dois aumentou um pouco, e o conde
passou pelo poste de chegada em primeiro lugar, entre os vivas e aplausos
dos assistentes.
Os dois cavaleiros refrearam seus animais, e os outros competidores foram
chegando, um a um.
- Eles esto muito felizes - Alice observou.
- Eu no tinha dvida de que Charles e Druro seriam os melhores! - Gina
disse com um sorriso.
Ela pensava no que o conde lhe dissera sobre vencer a corrida por ela.
Ento viu-o aproximar-se da carruagem. Quando ele chegou bem perto, ela
segredou-lhe:
- Obrigada! Foi um presente adorvel... Exatamente o que eu queria
receber!
Estendeu-lhe a mo, que Druro levou aos lbios.
- Esta vitria foi apenas uma das muitas coisas que desejo oferecer-lhe -
disse ele suavemente.
Em seguida, voltou para a multido que esperava por ele.
O almoo foi servido depois da corrida, e durou at quase a hora do ch.
Assim que pde, Gina foi para a biblioteca.
Queria ficar a ss at que o conde pudesse v-la. No momento, isso no
seria possvel, pois quase todos queriam falar com ele.
Alice no se separaria de Charles enquanto ele no fosse para sua casa.
Quanto aos outros convidados, Gina nem quis pensar neles, pois no eram
importantes para ela.
S o conde ocupava seus pensamentos. Mal podia acreditar que se
apaixonara pelo homem mais maravilhoso do mundo. A menos que se
enganasse, ele se preocupava com ela.
"Permita que ele me ame um pouco, Senhor. Sei que no devo ser ambiciosa
demais. "
Ao fazer esse pedido, reconheceu que desejava muito mais: embora
parecesse impossvel, desejava casar-se com o conde, da mesma forma que
Alice certamente se casaria com sir Charles.
Lembrando-se de sua condio de empregada, veio-lhe  mente a expresso
de desprezo de lady Myrtle ao saber que ela vivia em Ingle Priory como
simples acompanhante de lady Alice.
O conde tambm no poderia v-la de outra forma. Talvez ele quisesse
apenas beij-la, estar ao seu lado e pensar envaidecido que ela no
passava de mais uma mulher que lhe entregara o corao.
Depois de se sentir no cu, tocando as estrelas, Gina voltou  terra.
121
O conde poderia sentir por ela o que sentia por toda mulher bonita. Ela,
porm, j lhe entregara o corao e a alma. Sendo assim, no teria
condies de continuar em Ingle Priory. Como teria foras para suportar
v-lo flertar com lady Myrtle, rir e conversar com outras mulheres
lindas, sofisticadas e experientes?
Elas tambm o olhavam de um modo provocativo e insinuante que lhe fugia 
compreenso.
"Direi  nanny que teremos que deixar esta casa", disse Gina a si mesma,
decidida. "Vou para The Towers morar com tio Edmund. No perteno nem
pertencerei ao mundo do conde. "
O que mais influra em sua repentina deciso de partir foi o pensamento
de que o conde pudesse sugerir-lhe algo desabonador, por consider-la uma
simples acompanhante de Alice.
De modo vago, bem no fundo da mente, Gina lembrou-se de ter ouvido dizer
que os homens de Londres costumavam conquistar "beldades", como lady
Myrtle, por exemplo. Tambm se interessavam por atrizes e danarinas que
apareciam em Covent Garden e nos teatros.
Sabia que se divertiam com as mulheres que conquistavam, passavam grande
parte do tempo ao seu lado, davam-lhes presentes valiosos, porm no se
casavam com elas.
Havia, algo muito errado com essas mulheres, porque as pessoas se
referiam a elas da mesma forma que a nanny o fizera ao mencionar que a
sra. Denver se maquilara e tentara ficar mais atraente para receber o
conde.
No desejando que as lembranas da beleza encontrada em Ingle Priory e da
maravilha dos beijos do conde se perdessem ou fossem denegridas, decidiu
que era imperioso partir logo.
Assim pensando, abriu a porta da biblioteca e seguiu pelo corredor
correndo, fugindo no apenas do lugar, mas tambm dos prprios
pensamentos. Ao passar pelo escritrio do conde, porm, a porta se abriu
e ele saiu, por pouco no se chocando com ela.
Por um instante ele apenas a fitou, surpreso, e ento disse:
- Eu ia pedir a Newman que mandasse algum cham-la.
Enquanto falava, puxou-a para dentro do escritrio e fechou a porta.
- Esta  a primeira oportunidade que tenho de ficar a ss com voc -
ele explicou. - Temos muito a dizer um ao outro.
O conde ficou algum tempo apenas admirando a beleza de Gina, que, devido
 corrida, tinha o rosto afogueado e o cabelo loiro espalhado sobre os
ombros e  volta do rosto, formando um halo dourado. Nos olhos dela havia
agora o brilho da felicidade por estar com Druro; a sombra que antes lhe
toldara o olhar desaparecera.
Sem dizer uma palavra, Druro a tomou nos braos. Seus lbios procuraram os
dela e a mantiveram cativa, transportando-a mais uma vez at as estrelas.
A princpio seu beijo foi suave como os da noite anterior. Em seguida,
excitado pela doura e inocncia de Gina, ele a puxou para junto de seu
corpo e passou a beij-la loucamente, de modo possessivo e imperioso.
Quando ambos j estavam sem flego, Druro ergueu a cabea
e murmurou:
- Como pde fazer isso comigo? O que fez para me deixar assim, dominado
por emoes que nunca senti?
Gina quis perguntar o que ele queria dizer realmente, porm viu-se mais
uma vez presa aos seus lbios. Druro a beijou at senti-la completamente
sua. Ela se entregou sem reservas, sabendo que sem ele o mundo seria um
lugar escuro e vazio.
Afinal ele ergueu a cabea, e Gina emitiu um leve murmrio, encostando a
cabea no peito dele.
- Minha querida, minha adorada! Eu poderia t-la perdido para sempre! S
Deus sabe que minha vida no teria sentido sem voc!
Havia tanta sinceridade e emoo em sua voz que Gina ergueu a cabea e
olhou para ele. Ento o conde perguntou:
- Quando poder se tornar minha esposa?
A surpresa deixou Gina estonteada; por fim perguntou, em voz quase
inaudvel:
- Est mesmo me pedindo em casamento?
- Voc sabe que para mim tudo o que importa  que aceite casar-se comigo.
Quero cuidar de voc, quero proteg-la e t-la ao meu lado noite e dia.
123
Vendo-a muito calada, Druro provocou-a:
- No posso acreditar que voc vai recusar meu pedido!
- Receei que o fato de eu ser apenas uma acompanhante de sua prima
pudesse constituir um empecilho  realizao do nosso casamento...
- No importa quem voc seja! Para mim, voc  a mulher mais linda que j
conheci em toda a minha vida. Ao captar seu pedido de socorro ontem 
noite e chegando at a ver seus olhos suplicantes, tive certeza de que
existia algo muito forte entre ns. - Ele estreitou-a ainda mais nos
braos. - Acredito que voc nunca tenha sentido por outro homem o que
est sentindo por mim. Estou certo?
-  claro que nunca senti. Amo voc com todo o meu ser, mas eu pensei em
fugir, porque imaginei que voc no me amasse o suficiente, e cheguei a
ter medo...
- Ter medo?
- Que voc pudesse encarar frivolamente o amor que sinto por voc, e que
 to perfeito! Eu no suportaria ver um amor assim... destrudo.
- Isso nunca acontecer, minha querida. Vamos marcar nosso casamento para
a prxima semana, logo depois que todos os meus convidados tenham
partido.
A alegria que subitamente tomou conta do rosto de Gina deixou-a ainda
mais adorvel. No entanto, ela desviou o olhar e perguntou timidamente:
- A lei no exige o consentimento do meu tutor?
- Seu tutor? Quem quer que ele seja, por certo vai me considerar um
marido digno de voc.
Veio  mente do conde que inmeros pais ambiciosos j haviam tentado
"empurrar" suas filhas para ele. Sem dvida nenhum tutor faria pouco do
conde de Ingleton.
Vendo a preocupao no rosto de Gina, ele segurou-lhe o queixo
delicadamente e a fez encar-lo.
- O que est escondendo de mim, querida? Quem  voc? Quem  esse tutor
misterioso que permitiu que sua tutelada se empregas se como
acompanhante?
Gina hesitou. Porm, vendo que o conde esperava sua resposta, conseguiu
murmurar:
- Meu tutor  tio Edmund... lorde Calborne. passou-lhe pela mente que o
tio desaprovaria o conde com veemncia. Tal pensamento f-la estremecer.
- Como estou de luto, meu tio far questo que esperemos doze neses para
ento marcarmos o casamento.
O conde riu.
- No estou disposto a esperar nem doze dias! - Ele franziu a testa,
mostrando-se pensativo. - Lorde Calborne? Voc no pode estar referindo-
se ao "nobre pregador"! Gina acenou com a cabea afirmativamente. -
- Titio sempre desaprovou o estilo de vida de papai, e tenho certeza de que
ir opor obstculos ao nosso casamento.
O conde estreitou-a nos braos.
- Ele certamente o far, e nesse caso, minha querida deusa, no pediremos
seu consentimento. Iremos procur-lo depois que j  estivermos casados!
Druro devia estar insinuando que ambos fugissem. Ela prpria havia
sugerido isso a Alice, caso o conde se opusesse ao seu casamento com
Charles. Lendo-lhe os pensamentos, ele disse:
- Exatamente, minha querida! Nada  mais importante do que o nosso amor.
Estou disposto a fugir com voc, a rapt-la, a lev-la comigo para uma
terra distante, onde ningum nos encontrar; farei qualquer coisa para
torn-la minha esposa.
  - Ser mesmo possvel nos casarmos sem o  consentimento de
tio Edmund?
- No pretendo discutir isso com ele, e tampouco permitirei que coisa
alguma estrague nossa felicidade ou desvirtue o sentimento maravilhoso
que nos une. - Druro dirigiu-lhe um sorriso carinhoso. - O arcebispo de
Canterbury nos conceder uma licena especial, e meu capelo nos unir
em matrimnio aqui mesmo, na capela. Voc sentir ali a presena dos
espritos dos monges, como sentiu no salo de jantar.
Gina sorriu, expressando sua felicidade.
125
Novamente o conde a abraou, apertando-a junto ao corpo e beijando-a at
que tudo pareceu ter deixado de existir para ambos, a no ser seu amor.
Era um amor que enchia o mundo todo e nada o poderia destruir.
O conde de Ingleton e a srta. Gina Borne se casaram trs dias depois,
logo que os convidados voltaram para Londres.
com sua costumeira habilidade, o conde no deixara Gina ficar sabendo as
verdadeiras cenas provocadas pela sra. Denver e por lady Myrtle.
A governanta se ajoelhara diante dele ao ser informada de que teria de
deixar Ingle Priory, porm no convencera o patro com suas lgrimas.
Quanto a lady Myrtle, ele lhe dissera que ambos deviam usar de muita
discrio, o que a deixou perplexa.
- Tenho motivos para acreditar que h nesta casa algum criado ou criada
de quarto que est informando seu marido sobre nossos encontros - o conde
explicou-lhe.
Lady Myrtle empalideceu.
- No pode ser verdade! - protestou.
- No podemos correr riscos.
Lady Myrtle sugeriu diversos modos de se encontrarem sem levantar
suspeitas. O conde, no entanto, mostrou-se inflexvel, o que irritou a
beldade, fazendo-a acus-lo de covarde e deix-lo, indignada, jurando no
querer v-lo novamente. Era exatamente o que ele desejava.
Por fim, quatro pessoas extremamente felizes ficaram em Ingle Priory.
Sir Charles viera, a convite do conde, ficar uns dias em Ingle para
cuidar dos preparativos do casamento com lady Alice, a ser realizado na
semana seguinte. Alice, por sua vez, foi para a casa da me de sir
Charles, no muito distante, para conhecer pelo menos alguns parentes do
futuro marido.
Druro no quis que Gina conhecesse nenhum dos seus parentes antes de se
tornar sua esposa. Alegou que no desejava se arriscar a v-la mudar de
ideia ou acabar descobrindo que ele no era o homem de sua vida.
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- Amo voc - Gina dissera suavemente. - Ainda acho inacreditvel que voc
tenha se apaixonado por mim.
- Tambm acho inacreditvel que tantas coisas incrveis tenham Acontecido
para nos unir. Asseguro-lhe que bateremos todos os reordes de casamento
mais feliz!
- Ningum jamais ser to feliz como eu. As pessoas podero  se espelhar
em ns e querer seguir nosso exemplo. Devemos dar a elas um pouco do
nosso amor.
- Desde o primeiro instante em que a vi soube que havia encontrado a
mulher que estivera procurando a vida inteira. Para falar a verdade, voc
me assombrou, minha querida. Voc assombrou neu corao, insinuou-se
nele; seu encanto me perseguia, e eu no enxergava mais as outras
mulheres, via s voc, pois nenhuma delas chegava a seus ps.
Druro falava num tom srio e comovido que emocionou Gina. sem encontrar
palavras para se expressar naquele momento, ela beijou-o. O toque
daqueles lbios despertou a paixo de Druro, ele passou a beij-la
ardentemente, com loucura, como se desafiasse o mundo a tir-la dele.
Na noite do casamento, Gina estava lembrando que a cerimnia nupcial
havia sido maravilhosa e jamais a esqueceria.
Deitada ao lado do marido, na mesma cama onde havia dormido com Alice
algumas noites atrs, aconchegou-se nos braos de Druro.
As cortinas estavam afastadas e l fora o cu brilhava, coalhado de
estrelas. A lua surgia atrs dos carvalhos do parque.
- Amanh partiremos para nossa lua-de-mel. Vou lev-la para outra casa
que possuo, onde ficaremos sozinhos.
- Fiquei contente por passarmos nossa noite de npcias aqui. Afastaremos
com nosso amor os ltimos resqucios que possam ter ficado da maldade da
sra. Denver e seus fantasmas.
- Nunca mais quero ouvir esse nome! Tambm j dei ordens para
transformarem o "quarto dos fantasmas" num boudoir, onde ningum mais vai
dormir.
- Por que algum iria ter medo se as correntes e as outras coisas para a
encenao j foram tiradas de l?
127
- No quero me arriscar - Druro declarou com firmeza.  - E se h
 fantasmas em outra parte da casa, devem ser os dos monges que voc sentiu
que a ajudaram quando esteve presa no esconderijo.
- Fico feliz por voc ter acreditado em mim e sempre me compreender. Por
favor, meu adorado e maravilhoso Druro, continue a me amar... e me ensine
a am-lo ainda mais, embora eu acredite que isso no seja possvel.
- Eu a amarei at que as estrelas deixem de existir no cu e at que os
mares e oceanos se transformem em desertos. Quero que tambm me ame dessa
forma.
- Meu amor por voc j  assim.
Druro a beijou, e os dois se sentiram cobertos de estrelas cadas do cu.
Um fogo ardia dentro deles, despertando sensaes fsicas, muito humanas
e todavia divinas em sua essncia, porque eram demonstraes do amor. E o
amor tornou-se um s ser, um s corpo, um s corao, uma s alma.
Esse amor nada frvolo ou descuidado era o amor verdadeiro. O amor
eterno.
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QUEM  BARBARA CARTLAND?
As histrias de amor de Barbara Cartland j venderam mais de 350 milhes
de livros em todo o mundo. Numa poca em que a literatura d muita
importncia aos aspectos mais superficiais do sexo, o pblico se deixou
conquistar por suas heronas puras e seus heris cheios de nobres ideais.
E ficou fascinado pela maneira como constri suas tramas, em cenrios que
vo do esplendor do palcio da rainha Vitria s misteriosas vastides
das florestas tropicais ou das montanhas do Himalaia. A preciso das
reconstituies de poca  outro dos atrativos desta autora, que, alm de j ter escrito mais de trezentos livros,  tambm historiadora e
teatrloga. Mas Barbara Cartland se interessa tanto pelos valores do
passado quanto pelos problemas do seu tempo. Por isto, recebeu o ttulo
de Dama da Ordem de So Joo de Jerusalm, por sua luta em defesa de
melhores condies de trabalho para as enfermeiras da Inglaterra, e 
presidente da Associao Nacional Britnica para a Sade.

Fim
